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L'art et la science sont independants. La morale ne doit avoir aucune prise sur eux; jamais l'artiste, avant de faire une statue, jamais le philosophe avant de faire une loi, ne doivent se demander si cette statue sera utile aux mœurs, si cette loi portera les hommes à la vertu. L'artiste n'a pour but que de produire le beau, le savant n'a pour but que de trouver le vrai. Les changer en predicateurs, c'est les detruire. Il n'y a plus de science ni art dès que l'art et la science devienent des instruments de pedagogie et de gouvernement.

H. TAINE.

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[A ESCOLA DE FLIRT]

AO CONDE DE FIGUEIRÓ

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[A ESCOLA DE FLIRT]

O PROFESSOR.—Sem edade, 25 ou 40, tudo lhe convém. Uma mocidade que envelheceu, ou mocidade que dura quand même, «je meurs où je m'attache». Toda a pelle do rosto é sulcada por imperceptiveis rugas finissimas; a boca tem um sorriso de cético, mas os olhos ainda brilham. Parece ter conhecido tudo ou advinhado tudo. Se se olha para a boca, sente-se que conheceu, para os olhos, pensa-se que adivinhou.

Elegante, uma ponta de preciosismo,—muito pouco!—apenas presentida na maneira como olha para as mãos deliciosamente cuidadas, como as d'uma senhora, viajou por toda a parte, indo mais ás festas mundanas do que aos museus, leu mais jornaes do que livros.

A DISCIPULA.—Uma ingenuidade, que quer conhecer tudo, ignorando tudo. Vestida um pouco à la diable, seria positivamente fagotée sem a elegancia do corpo fino e leve e o brilho e o riso dos olhos e dos labios côr de rosa.

A discipula vae procurar o professor da Escola de Flirt, discretamente annunciada por meio de circulares em papel lilaz com dois corações em chamas estilisados à maneira moderna. É n'um minusculo jardim seculo XVIII portuguez, com um delgado repuxo a partir-se n'um pequeno tanque sem lavores e canteiros bordados por buxeiros. No centro d'um, uma anagua forma uma copa verde-clara de onde pendem as campanulas brancas que perfumam.

O PROFESSOR—É v. ex.ª que...

A DISCIPULA—Sim, senhor... Venho aqui tomar algumas lições. Fiz a minha educação{12} no convento; não tive occasião de aprender os rendimentos do Flirt. Casei sem amor, sem noivado, sem lua de mel... Um casamento de conveniencia... para o meu tutor. Escusou de prestar contas. Vim ha pouco para Lisboa. Aqui, toda a gente flirtea um pouco. Troçam do meu acanhamento, chamam-me Pires, até Possidonia, dizem que sou «old style», do tempo da rainha Anna... Recommendaram-me esta escola. Se não ensinam aqui as cortezias, dança, diversas maneiras de trazer as mouches, como no tempo de Moliére, mostram-nos como se conduz um flirt com a pericia com que o Jeronymo Condeixa guiava four-in-hands.