—Ó meu Deus! Lord Carnehan tornou-se para mim uma obsessão. Era como um vidro negro que me punham nos olhos para eu vêr a vida. Nada me parecia claro, luminoso, florido. Julgava olhar sempre para dentro d'um poço secco. Essa creatura estragou-me alguns mezes de existencia. A principio ainda eu ria, pelo movimento adquirido. Mais tarde, porém, o riso desappareceu. Sempre aquelle somnolento homem que só abria a bocca para perguntar pelas horas, como se tivesse pressa{78} d'alguma coisa, elle que não fazia nada, ou para dizer alguma sentença, um aphorismo de Schopenhauer ou d'alguns dos fulminantes catholicos, á maneira hespanhola, sombrios, repulsivos. Comecei a olhar para o espelho, a vêr se sabia rir. Não sabia. Vinha uma careta ao contrahir a bocca; parecia-me de pedra os labios, ao querer abril-os n'um sorriso. Quiz mortifical-o, fazer com que, atraz de mim, os amorosos corressem; empreguei, ante os seus olhos pardos, o requinte do coquetismo; mostrei todo o artificio de mulher e de actriz. Nada. Sempre lord Carnehan indifferente, a cabeça sobre o peito, as mãos pendidas, a perguntar-me periodicamente:—Que horas são? De quando em quando, sem lhe dizer aonde ia, deixava-o todo o dia; ás vezes, aborrecida, nem ia á rua. Ficava no meu quarto, as lagrimas nos olhos, a vêr o movimento dos bateaux-mouches a atravessar o Leman; os raros automoveis que passavam pela rua e alguns ranchos de forasteiros arregimentados pelas agencias. Arrastava-se o tempo; defronte de mim, o lago que á esquerda se curva, limpido, transparente. Na outra margem, o parque Jean Jacques, alinhado e limpo, como um desenho do concurso. E era alli, á direita, a arvore que dera sombra, na tarde criminosa, em que o anarchista matára a Imperatriz Isabel. Pensava no fim tragico que ali procurara, sob um pequeno platano viçoso,{79} a alma aventureira e poetica, a dama de todas as viagens, que vira tantos ceus ensolados e tantos mares em procella... Quando voltava, de proposito despenteada, com muito rouge na face, a fingir córada, lord Carnehan levantava com esforço os olhos para mim e perguntava-me, na voz pausada, sem um estremecimento:
—Que horas são?
Eu era o relogio, para elle! N'essa terra fria, geometrica, regular no andamento como uma machina—a alma de Genebra é um relogio—eu não era nada mais do que um chronometro em que se tem confiança. Um dia, furiosa, comprei um relogio e offereci-lh'o. Imagina que acabou a historia? Não. Comecei a fazer-lhe scenas, a dizer-lhe improperios em calão dos bairros infimos de Londres—uma artista conhece tudo e o resto—phrases de marujo; elle ouvia, ouvia, e depois tirava o relogio da algibeira e dizia-me:
—Por força que este relogio atraza! Que horas são?
Quiz matal-o. Uma noite entrei no seu quarto. A lamparina envolvia tudo em penumbra. Até a dormir tinha o ar cançado. Levava uma mascara de cloroformio... Conhece o conto de Lorrain sobre as mascaras de Londres? foi n'elle que me inspirei... Ia para lh'a pôr na cara e acabar com elle. Tropecei n'uma cadeira.{80} Carnehan acordou sem sobresalto. Olhou para mim:
—O quê? já manhã? Que horas são?
Não! Não era possivel! Pensei em atirar-me da janella abaixo. Não podia mais com a vida. O diabo é que estragava o penteado! Resolvi fugir. Fiz as malas, guardei joias e dinheiro, rompi a escriptura com o emprezario, perguntei por minha vez que horas eram a Carnehan—a cara que elle fez!—e metti-me n'um comboio e vim para a Hespanha, onde ha sol, ha muito sol e não quero nunca saber que horas são!»
A sua face parecia uma flôr de perola, e na bocca fortemente pintada um sorriso brilhou...{81}
[A MARCIA]
A SILVA GRAÇA.