O pae era um pequeno lavrador, que vivia feliz entre as suas vinhas e os seus milhos.{87}
Um dia casou com a mãe, uma pobre rapariga da cidade, que cozia a dias. Louçã, fresca, de grandes olhos claros, gostava dos vestidos de seda, dos brincos d'oiro e das rendas. Depois do primeiro anno, tiveram Marcia, que poz no lar contente um ponto de luz. Em volta d'ella os carinhos adejaram. E as mãos habeis da mãe cançaram-se a arranjar-lhe touquinhas, camisinhas, pequenas coisas de linhos finos que iam á cidade comprar. Parecia uma filha de gente rica, tão garrida andava.
E linda, com o seu cabellito loiro e os olhos azues muito largos, sempre abertos como a querer aprehender toda a vida, todo o mundo.
Aos sete annos adoeceu gravemente. O medico ia duas e tres vezes a casa, cada dia. E á noite, depois de vêr a pequena, ficava ali, emquanto o pae somnoleava, a conversar com a mãe. O medico era novo, janota, tinha os bigodes pretos retorcidos e dizia versos. A mãe caiu-lhe nos braços, uma noite em que Marcia ficára livre de perigo.
—O que eu vi! Vocemecê não acredita, mas vejo ainda! É como se estivesse diante d'elles na minha caminha! Elles punham-se aos beijos e aos abraços, pensando que eu dormia. Eu não dizia nada, nem sabia o que era. O pae ficava fóra, a dormitar, na salla de meza. Uma noite elle entrou e apanhou-os abraçados. Voltou{88} sem fazer bulha para dentro. Trouxe uma foice comsigo. E degolou-os ali, o medico primeiro, a mãesinha depois.
«Agarrou-o pelo cabello e foi como quem monda herva, só d'uma vez. E atirou para o chão a cabeça, de que escorria sangue. A mãe nem pôde gritar. Nem eu, que sentia um peso aqui, na garganta. Tambem degolou a mãe e atirou para o chão com a cabeça. A mãe custou mais. Foi aos sacões que a acabou. Depois poz as cabeças e os corpos fóra a pontapés. A pontapés! E então? Parecia doido! E o quarto parecia-me todo vermelho, e meu pae, e eu mesma sentia o sangue escorregar-me pelas mãos. E queria limpal-as e não podia. Parecia que tinha as mãos atadas e sangue na bocca! Depois, meu pae, que pensava que eu dormia, veiu lavar a casa, muito devagar, para não fazer bulha. Depois chamou os creados. Então todos choraram. Mas meu pae não chorou. Veiu para o pé de mim e passou toda a noite a vêr ao candieiro se tinha sangue nas mãos. Chegava-se muito á luz para vêr as unhas. Depois lavava as mãos e sentava-se, punha-se a olhar muito para ellas, a esfregal-as, e ia laval-as mais!
A velha calou-se por momentos. Depois proseguiu:
—É tal e qual! Vejo como se fosse vocemecê! As barbas do pae, que eram pretas, pareciam{89} encarnadas. E tudo, tudo estava tingido de encarnado!
«O pae foi preso, mas d'ahi a mezes saiu livre.»
Olhou para mim, e com terror: