—Parece que podia matar!
«Fiquei em casa com a mulher que me servira d'ama e melhorei. Antes Deus me tivesse matado, que não tinha soffrido tanto! Lembro-me de tudo! De tudo! É por isso que bebo. Quando bebo muito, parece-me que os casos se deram com outros; parecem coisas que me contaram. E bebo muito, bebo sempre, mas nada me esquece, senão quando cáio na estrada a dormir!»
E voltou á historia dolorosa da sua vida, sempre apressada, a querer acabal-a quanto antes.
Ficára com o pae, sombrio sempre, que lhe dizia palavras severas d'uma moral cruel e sanguinaria. Foi crescendo sem alegria na casa de crime e de amor. Um dia alguem a possuiu tambem. Sentiu os beijos que são vermelhos como o sangue e como sangue embriagam, nas boccas amorosas. Sentiu os abraços que apertam como uma cadeia de flores venenosas. Não me disse o nome do amante, não me deu uma unica indicação. Tratava-o por «alguem», sem odio.
Um dia sentiu que uma vida estranha se agitava dentro d'ella; confusa e alarmada, disse-o ao amante.{90}
—«Nunca mais appareceu. Escrevia-lhe, mas as minhas cartas ficavam sem resposta. Até que soube que «alguem» tinha abalado da terra.»
Referiu-me com terror os mezes angustiosos que passou a querer esconder o seu «peccado», como ella dizia. Eram sobresaltos continuos. Não o queria confessar a ninguem, não queria confidentes. Mesmo na quaresma fingiu-se doente e não foi á desobriga. Até do padre tinha medo, não fosse elle dizel-o ao pae. Este não via nada, absorvido sempre, ensimesmado, como quem tinha dentro de si imagens sufficientes para não recorrer ao mundo exterior. Vivia do passado, enlisado na noite vermelha em que matára os amantes que se beijavam.
Uma noite, no quarto escuro, onde não se atreveu a acender um candieiro, o filho nasceu entre estertores, ralos que Marcia mordia, para não despertar ninguem, para que ninguem suspeitasse do seu segredo. E n'essa noite, emquanto as dores do parto lhe rasgavam todas as fibras, estorciam todos os nervos e punham-lhe nos olhos a figura da morte horrivel, outras imagens se levantavam, nitidas, deante d'ella: o pae com a foice, os amantes que se abraçavam, e as cabeças decepadas a rolar no chão, com esguichos de sangue. O quarto era todo vermelho, outra vez, apezar da noite escura. E Marcia rasgava com os dentes os lençoes, mordia{91} os travesseiros, e o linho tinha um gosto a sangue dos proprios labios, mas dos outros, pensava.
O filho nasceu, n'um vagido. Marcia beijou-o, para o calar. Apezar de se sentir desmaiar, pegou n'elle amorosamente e embalou-o. Mas outro gemido saiu da massa informe. Parecia-lhe que era estridente, enchia todo o quarto, acordaria, talvez, a villa, como os sinos quando tocam, anciosos, a rebate.
As suas mãos magras apertaram a garganta do pequenino ser. Nem um ai. O filho devia estar morto. Levantou-se, a cambalear. As pernas dobravam-se. Com o pequeno n'um braço, de rastos, os olhos cheios de sangue da allucinação, rojou-se pelo quarto, abriu a porta, desceu as escadas ás arrecuas, saiu á rua.