Era uma noite clara, sem lua. As estrellas formigavam no ceu. A via latea, no azul escuro e transparente, era uma poeira de mica. As arvores faziam pastas de sombra na paisagem. Uma fonte doloridamente se lamentava, n'um tanque de pedra. Lembrava-se de todos os promenores. Na abegoaria mugiu uma vacca. E o cão veiu apressado e contente lamber-lhe as mãos. Ninguem sentira. Mas Marcia pensava ouvir passadas no estalido seco das folhas murchas que caíam e na brisa pelas ramadas, o mexer de vestes de pessoas a perseguil-a.

Em cada canto mais denso de sombra, via{92} olhos a espreital-a. E, em camisa, quiz correr, sem forças. De onde em onde, sentava-se, forçada, porque as pernas não podiam mais. Ouvia gritar a morta. E as suas unhas cravavam-se desvairadamente na garganta do innocente. Chegou ao fundo da quinta, um terreno de trigo já ceifado. Verão seco, a terra chistosa era dura.

—Foi com as minhas mãos que cavei a terra. Como era dura! Parecia que eram pedras que eu partia com as mãos. E ellas encheram-se de sangue. E eu, no meio d'aquelle trabalho feroz, ainda ouvia o innocentinho gritar. E apertava-lhe mais a garganta. E voltava a cavar, queria cavar fundo, para que não dessem com o corpinho quando lavrassem a terra para semear de novo. E não havia maneira! Não tinha força nem coragem para ir procurar uma enxada, um ferro, qualquer coisa com que podesse abrir a terra tão dura, que me fazia doer tanto as mãos. Sentia que rasgava os dedos. E tinha medo de que amanhecesse. Olhava para o Ceu, a vêr se já despontava a claridade. E parecia-me sempre vêr o ceu mais claro, ás vezes até pensava que havia sol de meio dia. E voltava a cavar, os olhos fechados, com raiva, sem saber bem o que fazia!»

Conseguiu fazer uma cova. Grande? Pequena? Não sabia dizel-o. Deitou terra por cima do cadaver ensanguentado, calcou-o com raiva, e então poude correr, por entre as arvores, a{93} bater nos galhos e nos troncos, a rasgar a camisa e as carnes, até casa. Ia amanhecendo. Um traço alaranjado corria na nascente. Metteu-se na cama e dormiu.

Calou-se. Estendeu-se nas pedras, de borco, a olhar fixamente para o mar. Era já noite. As estrellas palpitavam no céu transparente. O mar enchera-se de sombra. Os barcos tinham recolhido já. Ouvia-se apenas o quebrar das vagas na Bocca do Inferno.

Marcia levantou-se e estendeu-me a mão, supplicante:

—Dá-me um tostão para aguardente?!{94}
{95}

[O CEGO]

A ALBERTO D'OLIVEIRA.

{96}
{97}