[O CEGO]

O Pintor, que vivera intensamente na luminosa communhão das coisas bellas, no culto da Fórma e da Côr, sorvendo a Belleza religiosamente, como se aprecia um vinho velho, de repente cegára.

E no tumulo do seu atelier de que haviam fugido os modelos, errava angustiado, querendo com a mão sentir a linha das figuras que o seu divino pincel traçara, nas manhãs claras, entre tapetes que amorteciam os passos e ás vezes a queda dos corpos dos divans acolhedores.

Sentava-se no mesmo escabello veneziano, marchetado, tendo diante de si, no cavallete, uma tela. E vagarosamente ia traçando linhas, julgando ainda desenhar figuras, compôr peitos firmes, contornar curvas musicaes de quadris,{98} illuminar olhos abertos, cheios de sonho e de volupia.

Mas o pincel empastava tintas, inexperiente na mão do grande mestre, como na d'uma creança de peito.

Depois do inutil esforço, não podendo vêr, lançava ao chão, com raiva, a tela, e punha-se a passear, cambaleante, hesitante, como um ebrio, as mãos estendidas, como se da ponta dos dedos nascessem olhos, a guial-o.

E vivia apenas com um velho servo. O atelier morria ao abandono. Para quê a molleza dos tapetes persas, os brilhos dos espelhos de Veneza, os marmores das estatuas e a radiosa formosura dos seus proprios quadros divinisando a Vida? Para quê? Se tudo adormeceu sob a cinza que se acumulára nos seus olhos d'antes d'um tamanho brilho, esses olhos leaes, sem ironia, cheios d'amor por tudo o que tivesse uma particula de Belleza?

Fôra um grande pintor afamado. Retratára as mais elegantes senhoras da côrte, em vestidos sumptuosos que mostravam, n'um decóte largo, o cóllo nu, como uma enorme flôr. E nos seus quadros punha tanta voluptuosidade que a marqueza de Bouro, devota e pudica, recusára com horror o retrato; apesar do pequeno decóte, da garganta alva pareciam nascer rubras florescencias de desejos.

E nunca mais pintou retratos. Ideou quadros{99} em que a mulher e a vida eram divinisados. Fez bacchanaes, em que as sacerdotisas nuas agitam tirsos enramados, coroadas de flôres, numa loucura divina. Compôz uma scena das vindimas em que as mulheres comem as uvas, sob as latadas viçosas, das boccas dos amantes. Fez Leda e o cysne, em que, n'um lago transparente, as virgens descuidosas se banham. Um cysne apparece, airoso, vagaroso, o macio pescoço n'uma curva larga. E ellas querem apanhal-o á porfia.

E esses quadros d'uma athmosphera tão clara, d'um ceu tão luminoso, com carnaduras frescas, admiraveis seios que exhalavam, como uma flôr de tropico, um perfume estonteante, tinham-lhe dado a riqueza e a gloria.