A CARLOS MALHEIRO DIAS.
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[A GLORIA]
Qu'est-ce que ça fait que je sois une grande artiste, si je ne suis pas heureuse?
Anatole France—Histoire Comique.
Gonçalo Freire, o escriptor que um romance intenso tornára celebre, estava triste e desanimado no seu gabinete de trabalho.
Os candelabros Luiz XV brilhavam nas multiplas velas brancas, faziam saltar faiscas dos cobres doirados, das faianças onde corriam idilios em jardins frondosos. O seu studio era sempre luminoso, quer de manhã, com as largas janellas abertas sobre o rio, quer de noite com as resplandecencias das luzes. Dizia que assim a imagem surgia mais precisa, mais clara, mais latina.
Gonçalo não gostava do nevoeiro que os escriptores do Norte deixam entre os seus periodos. Amava o sol e os ceus macios, o mar{106} incendiado, as praias do Algarve d'areia doirada, os rios transparentes, onde, á tarde sómente, boia um fumo tenue.
Esse romance, «A Face do Homem» revelava esse amor da clareza e do equilibrio. Pondo de parte os intuitos sociaes que prevertiam a literatura moderna, ligára quadros d'uma emarcessivel belleza por um enredo forte, interessante e commovido.
Pessimista á feição de Nietzche, descrevera a miseria da face humana, depois de arrancada a mascara; puzera o homem diante de si, n'um espelho, e o homem sentira-se asqueroso. Mas, crendo no culto dionisico, esperava pela Arte cobrir a fealdade da vida. E, perto do homem, a mulher, florida pelo amor, representava o Sonho, a Illusão que cobre com um veo azul, a distancia, os montes escarpados.
O publico gostára. Seis edições successivas se tinham esgotado, entre aclamações, em dois mezes. Os jornaes tinham publicado o seu retrato com artigos encomiasticos, comparando-o a Camillo, pela riqueza e propriedade do vocabulario, a Eça pela ironia, a Fialho pelo vigor do descritivo, sendo superior a todos pelo interesse e pela suprema Belleza do seu ideal de latino.