Era um d'Annunzio com mais sinthese.
Todas as revistas e jornaes sollicitavam a preciosa colaboração; o Suisso chamára-lhe{107} plagiario e idiota, apontára-lhe seis erros de concordancia, descobrira que em Coimbra roubára versos a Anthero do Quental, n'um poemeto que correra impresso, Sunt lacrimae rerum, em que Gonçalo Freire acreditava no Inconsciente, segundo Hartman e na Vontade, segundo Schopenhauer.
Quasi todos os dias o editor lhe mandava molhos de cartas de admiradoras, umas apenas a dizer a palavra quente da sua admiração, outras pedindo autografos e uma ou outra marcando, misteriosa, uma entrevista, n'um coupé, em sitio escuso.
N'essa noite, ao entrar em casa depois d'uma bridge party, fora sentar-se, a querer trabalhar n'uma novella, de que esboçara já o plano. O creado levou-lhe a correspondencia que Gonçalo abriu, aborrecido. Uma carta d'um editor que lhe pedia um livro para lançar a sua livraria; uma actriz nova e elegante, que lhe lembrava a vaga promessa d'uma peça, duas amorosas a pedir-lhe entrevistas e um escriptor hespanhol que solicitava auctorisação para traduzir «A Face do Homem». A lapis azul, no summario do Mercure de France, chamavam-lhe a attenção para um longo artigo de Philéas Lebesgue, em que o critico entoava um hymno em seu louvôr, enaltecendo a harmoniosa belleza do romance, «mais subtil, como psychologia do que Bourget, mais moderno que Jean{108} Lorrain, e tão puro de estylo como Anatole France». Recommendava-o a Herelle, como sendo a obra d'um Annunzio mais intenso.
Era a gloria, vinda do anonymo, não a celebridade feita pelos amigos.
Moço ainda, trinta annos, rico, representante d'uma casa antiquissima com o brazão registado muito antes de D. João III, parecia um d'aquelles principes que as fadas assistem no baptismo, dando-lhes todas as venturas.
Mas, triste, Gonçalo foi á janella e rasgou cada uma d'aquellas cartas, lançando ao vento os pedaços de papel, que baixavam, pareciam hesitar e sumiam-se no escuro.
Na noite sem lua pareciam nascer no espaço as luzes dos navios, que punham na agua um reflexo de estrella. Encostado ao parapeito, Gonçalo muito tempo olhou para a escuridão que enchia o rio. Um ou outro ruido de carro chegava até elle, sem o despertar; de quando em quando na rua, ao longe, brilhava por um instante um electrico, como um meteóro.
E Gonçalo poz-se a pensar no amor que dentro de si trazia, sem esperanças, um amôr que tivera uma demorada cristalisação. Essa mulher surgia, luminosa e florida, deante d'elle, no escuro. Via o seu corpo magro e esbelto, a florescencia clara do rosto um pouco duro, o olhar indiferente. Era sempre assim. E, ensimesmando-se, a figura aparecia-lhe, como uma{109} obsessão, para acentuar o alheiamento, atormental-o mais.
Muitas vezes, quando compunha, largava a pena, porque a mulher vinha para defronte d'elle e não havia maneira de fechar-se no seu pensamento, continuar o periodo interrompido pela visita.