E punha-se a recordar de como nascera aquelle amôr. Vira-a muitas vezes nas festas, nas ruas, nos theatros, indiferentemente. Uma mulher elegante e nada mais, feita talvez pelas costureiras que dispõem de espartilhos, de faixas que apertam os quadris, de bouffants que disfarçam chatezas de peito, de tecidos leves, que dão a aparencia de ligeireza aos corpos.
Não a conhecia. Nunca fôra forçoso conhecel-a e como não o interessava, não se aproximou. Era a Maria do Amparo. Quando ella passava pelo Turf, alguem dizia, ou o proprio Gonçalo:
—A Ampáro vae hoje bem.
—É uma mulher interessante.
—Veste-se bem, principalmente.
E tanto tempo a vêl-a, outras o chamaram, trouxe o seu coração envolvido em outros amores risonhos, quasi sem se prender. E a Maria do Amparo continuava a aparecer em toda a parte, elegante, um pouco preciosa, viva, um sorriso na boca fina que mordia para avivar o traço roseo dos labios.{110}
Uma noite, em S. Carlos, n'uma visita a um camarote, Gonçalo encontrou-a. Amparo falou-lhe nos artigos que Gonçalo publicara n'um jornal, chronicas vivas sobre o Culto da Belleza, a belleza na cidade, nos monumentos, nos jardins e nas praças, belleza no lar cheio de flores, com moveis elegantes e comodos, belleza na mulher, artificialmente rectificada, por maquilhagens habeis e vestidos sabiamente confeccionados por mãos peritas. Attraiu-o a conversa. Amparo tocou com intelligencia e tacto nos pontos mais originaes, mostrou comprehender e sentir a Belleza, rodeou-o de frases amaveis, em que havia, ora no sentido, ora na entoação, alguma coisa de carinhoso, poz em campo toda a seducção de mulher elegante, chamando-o a si, lançando-lhe a perturbante luz dos seus olhos claros. A conversa, apesar de curta, um entreacto e o começo d'um acto, acabara n'um flirt.
Gonçalo procurou vêl-a. Esperou-a attento e ancioso no Chiado, frequentou as casas onde poderia encontral-a. E as tardes de recepções, os raouts, as sauteries, e mesmo as empertigadas recepções diplomaticas, eram leves flirtations, que o deixavam absorto, andando pelas ruas sem attender a nada, sorrindo-se ás vezes de alguma palavra dita por ella, de um gesto mais expontaneo.
Todos os elementos de seducção foram postos{111} em pratica por Amparo. E na alma de Gonçalo começara a cristalisação; a rede ia-o apertando, avassalava-o a mulher deliciosa, como os antigos retiarios os seus adversarios nos circos romanos.
Gonçalo já não pensava em mais nada. Logo depois do almoço, em vez de sentar-se á meza, a trabalhar, ia para a rua sem destino, com a vaga esperança de a encontrar, de a vêr na carruagem. E em todas as festas se aborrecia até chegar a Amparo. No Gremio pedia todos os jornaes, sem poder lêr nenhum, porque se alheava, recordava os momentos felizes, idealisava impossiveis sonhos, uma fuga para algum paiz onde ninguem o conhecesse, e Amparo vivesse só para elle, esquecida do hediondo marido, de todas as caricias, de toda a vida interior. Se por acaso lhe passava pela mente a ideia justa de que Amparo nunca deixaria a vida mundana, a «consideração», a «situação», logo Gonçalo a sacudia por importuna, e enlevava-se no sonho.