Era uma vida feliz, apesar do pouco que ella dava—olhares, commovidas palavras, promessas n'um futuro remoto e impreciso, e, um ou outro beijo nas mãos que tinha macias, palidas, mãos entre sensuaes e misticas da Gioconda, sem a aristocracia das mãos de Velasquez ou Van Dick, sem a luxuria que rosea os dedos das figuras do pintor de Verona.{112}

De repente, porém, começou a esquivar-se a Amparo. Houve palavras dubias, falou de consciencia e de dever; prometeu um amor eterno, mas ideal, sem pecado, um amor que lhes cubrisse a vida com uma gaze leve, como um zaimpho. E mais e mais se foi esquivando, emquanto em Gonçalo o amôr se tornava mais forte, enchia-lhe o peito de desespero, amachucava-lhe todas as energias e dava-lhe a sensação de ter, dentro de si a alma, como o chapeu alto d'um clown.

E diante da noite, rasgando as cartas d'amor das outras e as aclamações do publico, Gonçalo, a chorar, repetia a frase da heroina da Histoire Comique:

—Que importa que eu seja um grande artista, se não sou feliz?{113}

[A FESTA DE MAIO]

A M. TEIXEIRA GOMES.

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[A FESTA DE MAIO]

—Violante! Violante! gritou o marquez para o jardim.

André, no cimo da escada, d'onde ageitava ramos no entablamento, conseguiu desenroscar-se dos molhos de madre-silvas que o coroavam, o envolviam, e voltou-se. Ao ver o pae sorriu-se.