Mas a miss partiu em lagrimas dolorosas. André foi acompanhal-a ao vapor com o velho «footman». Já ia longe o navio e ainda André acenava, os olhos molhados, o soluço a contrair a garganta; a miss tambem agitava o lenço, chorando...

Tempo depois apareceu em casa, de manhã cedo, quando André andava a regar os seus canteiros, a professora franceza que chegára de Paris. O seu andar era ligeiro e miudo como o dum passaro e evolavam-se d'ella uma gracilidade suave, desde os cabellos palidos até a curva rapida da cinta delgada. Tinha nos pequenos olhos cinzentos uma malicia e um riso. André, que se voltára, ficou boquiaberto. Certamente que a miss era linda como uma santa e doces as suas mãos e a tia Angra tinha os labios vermelhos e um perfume delicioso; mas nunca vira creatura assim airosa, alta e delgada, que balançava o seu corpo quando andava, como se fosse uma flôr, como um bloco de gracilidade a deslocar-se.

Ao saber, porém, que era a mestra franceza,{137} não a quiz vêr mais; nem a cumprimentou. Estava persuadido de que era culpada da partida da miss e guardava-lhe no peito, antes de a conhecer, um grande rancor. Fugiu, a correr, para o fundo da quinta e ali ficou a chorar com saudades da miss.

Ao almoço André foi repreendido. Ficou calado, os olhos baixos sem explicar o procedimento. O marquez disse-lhe que ia ter outros mestres, pois não podia ficar a saber apenas o latim, as vagas e erroneas noções de coisas que lhe dera D. Benito e as poeticas baladas de miss Lucy.

A principio a vida foi dura para André entre os professores indifferentes que tomavam as lições sonoleando, e mademoiselle Renée, hostil, que, pensava elle, tinha causado a partida da miss, linda como uma dessas santas serenas e indulgentes, que teem sempre, nos dedos em fuso, o gesto da benção.

André olhava para Renée, disfarçadamente; admirava a graça do seu corpo de que saia um perfume tenue, as mãos brancas, as unhas cuidadosamente tratadas, e, quando ella se abaixava, o palido reflexo da sua nuca doirada. O perfume era subtil e perturbante. Respondia com maneiras bruscas ás perguntas feitas numa voz macia e quente, falava-lhe muitas vezes inglez, fingindo ignorar os termos franceses, para lhe ser desagradavel. Mas Renée Viardot tudo{138} suportava com paciencia, lançava-lhe olhares enternecidos, queria afagal-o até, beijal-o num impeto em que brilhavam os seus olhos claros; mas André fugia logo, apesar dos quatorze annos, como uma creança indocil.

No verão davam as lições na quinta, em baixo, junto aos tritões, numa rotunda assombreada. Numa tarde quieta e quente, como estivessem juntos e Renée tivesse ao cólo um livro que interessava André e de que lhe explicava uma passagem, elle inclinou-se mais sobre o seu braço, quasi a tocar-lhe na musselina transparente da blusa, poude sentir o perfume brando e sensual e, interrompendo mademoiselle, perguntou-lhe bruscamente:

—Que perfume usa?

Nos seus olhos negros havia um quebranto e na face palida duas rosas vivas despertaram.

Renée agarrou-lhe na cabeça e mergulhando-lh'a na musselina da blusa: