A bocca vermelha e seca ria-se, contrafeita.

—Ha dias, não tive tempo para lhe dizer...

Aproximou-se d'André, apertou-lhe as mãos, deitava-lhe, ao falar, um halito perfumado e quente.

—Quer saber?—insistiu.

André córou e quiz fugir; mas mademoiselle agarrou-o mais, tomou-lhe a outra mão e apertando-lh'as, n'uma caricia sabia, palma com palma:

—Não faço segredo: é uma mistura de resedá e jasmim do cabo. Quer vêr?

Sem que lhe désse tempo para responder, poz-se nos bicos dos pés, mãos nas mãos, olhos nos olhos, e approximou-lhe da face o cólo tremente. Largando-lhe as mãos deitou para trás a cabeça palida de adolescente e reavivou com um longo beijo a flôr exangue dos seus labios virgens.

André beijou-a tambem, os olhos fechados, os corpos unidos, arcobotados um contra o outro.

Quando terminou o demorado abraço, André olhou para ella a medo. E por sua vez agarrou{142} na cabecita linda e beijou-lhe a boca longamente, sofregamente...

A noite, para André, foi toda de revoltas no leito, olhos abertos, labios em febre, franzidos, a procurar outros labios que não vinham, a desejar beijos, como se elles adejassem esparsos pelo ar e podessem pousar na sua boca. Comparava os beijos suaves da miss com os beijos de fogo que lhe dera Renée. E como era doce dormir depois de sentir as mãos alvas de Lucy a afagar-lhe os cabellos n'um somno tranquillo e doce! e como lhe era difficil adormecer, a revirar-se na cama, apagava e acendia a luz, sempre a lembrar-se da caricia extranha e inedita, do perfume estonteante, do calor dos labios secos, da macieza do cabello loiro, como se fosse de seda, de todo o corpo fino e flexivel que se colára ao seu, e n'elle deixára como cauterisadas placas de feridas, era bom e era terrivel. E toda a noite passou assim, até que de madrugada adormeceu murmurando em segredo o nome de Renée.