Era a puberdade que aparecia subitamente, irrompendo d'um jacto, como um poço artesiano de repente aberto.
Longo tempo durou esse noivado vermelho.
Certa tarde, D. Benito que ainda se arrastava pelo palacio, achacoso e velho, fazendo do dia uma comprida sésta, surprehendeu-os a beijarem-se.{143}
Clamando contra as iniquidades da terra, foi-se encontrar com o marquez, que á sombra d'uma tilia meditava Marco Aurelio, e contou-lhe, vermelho, esquecido do reumatismo que lhe tolhia as pernas, entremelando a lingua numa algaravia inconcebivel, a abominação das abominações.
O marquez, que pousára sobre o banco de marmore o livro antigo, mostrou-lhe uma haste toda coberta de goivos brancos:
—Vê esta planta, D. Benito? É algum peccado que na época propria se cubra de flôres? Repare para ellas. Com que voluptuosidade mergulham-se na atmosfera! Riem n'uma alegria clara e vívida por terem nascido. Da raiz sobe, triunfante, a seiva para as alimentar. Perfumam hoje, morrerão ámanhã, sem pecado, felizes por terem integralmente vivido. O seu polen voará para fecundar outras flores, D. Benito. Deixe que a vida se manifeste, deixe que todos sejam felizes!
O conego arriscou uma apoplexia ao ouvir a blasfemia do fidalgo. Teve forças para ir para casa embrulhar as escassas roupas e na mesma noite partiu para Sevilha—queria morrer entre gente cristã, dizia. Não se despediu d'André, nem de mademoiselle, apenas um comprimento seco ao marquez.
Fingiu este ignorar o que entre o filho e a mestra se passava. Continuavam no seu idilio.{144} Mas os annos passavam, André fez os seus estudos e o marquez mandou-o para Florença.
Renée regressou a França. Partiram juntos, por mar, para Barcelona.
Foi entre beijos, que sulcaram o Mediterraneo calmo e transparente, aqui azul-ferrete, além verde-claro, logo ensolado e doirado, sempre transparente. E de noite iam vêr, sós, as mãos nas cintas, muitas vezes os braços se uniam—a fosforescencia que se levantava na prôa, brilhante, n'uma espuma fina, como uma poeira de mica.