Como dois amorosos que acabam de dar o primeiro beijo, e logo, na ancia, querem contar mais de mil, mal viram Cadiz branca e pequena, a luzir no recurvo golfo azul; em Malaga não repararam no ar dolente das flamencas, que cantam cheias de volupia, e mesmo no Paseo sacodem as ancas, como n'um convite para uma volupia triste, e os seus vinhedos claros; apenas na cathedral feia e banal, se extasiaram diante d'um quadro, imagem de uma santa. Qual? Não o souberam e chamaram-lhe Nossa Senhora do Desejo insatisfeito. N'uma pequena tela um busto de mulher trigueira, andaluza, forte, pelle doirada, olha para o ceu. Os olhos teem a expressão dolorosa de quem muito deseja. E o vermelho dos labios carnudos, as narinas dilatadas, dizem o que ha de sensual n'aquella expressão ardente. O collo é aberto.{145} E as mãos, ao tapal-o com um lenço vermelho, ainda mais aquecem o tom quente do collo doirado.

Indifferentes, viram Valencia entre vergeis, clara e voluptuosa na planicie fertil e o Grao rumoroso, onde moirejam descarregadores nas docas e operarios nas fabricas. E Barcelona que se alastra em renques de arvores nas ruas largas, com seus palacios, suas avenidas, as Ramblas onde se apertam catalães silenciosos, os mercados de flôres cheios de gardenias, de jasmins e rosas, pareceu-lhes triste, porque alli se deviam separar.

Em vão subiram ao Tibidabo; donde se vê toda a Barcelona estendida, como um tapete, cortada de ruas; correm, ora direitas, ora em sinuosidades, linhas claras de platanos. Estendem-se as casas até junto ao mar azul, de onde em onde raras torres se levantam e entre ellas sobresahe o vulto gothico e afilado de Santa Maria de la Mar.

A ligeira neblina que se levanta do porto e envolve a estatua de Colombo, negra sobre a pedra branca da doca, parecia que envolvia tudo, que dava ás coisas a tristeza que estava n'elles. E Renée chorava, abraçava-se muito a André, obrigava-o a prometer-lhe longas e amiudadas cartas e uma viagem a Paris, quando voltasse, no anno seguinte, de Florença.

E assim, por uma tarde triste, conseguiu André{146} leval-a, pelo passeio da Aduana fóra, entre as palmeiras, á estação.

E os beijos cantaram, demorados e angustiosos, nas bocas dos amantes, até que uma voz rouca gritou:—Viajeros, al tren!—e o comboio silvou e partiu. André ficou a vêr o lenço de Renée e o comboio que se perdeu n'uma curva, fumegando.

Dolorosa foi, para André, essa noite.

Pareceu-lhe vasia e silenciosa a pequena alcova onde durante uma semana tinham dormido. Perseguia-o a lembrança do perfume, a macieza e a côr do cabello d'um loiro palido como um sol convalescente, a frescura da pelle fina, todo o encanto e todo o Amôr da deliciosa Renée que o iniciára e que o amára e de quem sentia ainda as lagrimas amargas que se misturavam aos beijos tristes que ella lhe dera nos curtos dias da despedida. E André chorou.

Na manhã seguinte partiu para Genova n'um liner da Liguria. Com elle regressavam á Italia cantoras do Liceu. Notou uma comprimaria delgada de cabellos e olhos pretos, que trazia do mercado da Rambla um grande mólho de flôres. Olhou para ella com desejo e n'esse desejo se surpreendeu, quasi esquecido de Renée. Facilmente feito o conhecimento, os dois dias de viagem foram rapidos em inconsequentes flirts, alegrias de dança na tolda e leves concertos no salão. Em Genova se separaram e André{147} partiu para Florença ligeiro e esquecido, com um certo prazer de se ter separado de Renée, que, agora o sentia, começava a pesar-lhe.

Em Italia a vida foi-lhe facil entre monumentos e mulheres, em cujos olhos boia uma grande alegria de viver.