Teve paixões e conquistas; quiz realisar quadros dos mestres florentinos que diariamente via no Pitti e nos Uffizi; procurou por toda a parte os typos ambiguos, perturbantes no seu enigma, entre efebos e mulheres, adolescentes sempre, ovaes perfeitos de rostos brancos, bocas sensuaes e vermelhas.

Nos corsos da Italia passeou em cavallos inglezes; em Veneza poetisou, no Grande Canal, pelas noites claras, sentindo humidade e paixão, até que aos dezoito annos voltou a Lisboa sempre a mesma palôr na face, os mesmos olhos tristes e boca exangue.

O marquez aprestava o seu casamento com Violante Cerquedo, filha dos condes de Cerquedo.

Só no palacio, sem os risos do filho, procurou distrações na vida mundana. Novo ainda, puzera-se a amar Violante, graciosa e intelligente, cujos vinte annos cantavam triunfantes, como uma primavera florida. Seduziu Violante a intelligencia do marquez, a sua figura aristocratica e a maneira amorosa como a olhava, como se fosse uma obra d'arte.{148}

Pouco tempo depois do regresso de André, por um inverno chuvoso e frio, a capella do palacio encheu-se de lumes e casaram.

André não deixou os costumes que trouxera de Italia. Paixonetas diversas amorteciam-lhe o coração, até que um dia, perseguindo Martha, uma actriz loura e chique, que lhe fugia um pouco, a tornar-se difficil e desejada, julgou ter «a verdadeira paixão da sua vida», como confessára, depois d'uma ceia fausta e turbulenta, a Jacintho Roquette, seu irmão em letras e seu confidente.

André lançára-se, á volta de Italia, doidamente na literatura. Frequentava redações e jornaes, theatros e cafés onde se reuniam jovens escriptores cheios de esperanças e de imprecações, revolvendo as ideias e os livros sem cerimonia, com o ar de quem, do alto d'uma montanha inaccessivel á plebe, residencia olimpica de escolhidos, considerou já os homens e as coisas.

Instintivamente fugira d'elles, da sua imperturbavel confiança, do azedume que d'elles suava quando se lembravam d'um exito. Ligou-se ainda mais com Jacintho Roquette, caustico e risonho, com um real talento que desperdiçava em cavaqueiras de café e em artigos feitos a trouxe-mouxe para jornaes e revistas, sempre a luzirem, atravez da luneta, os olhos azues, que dir-se-hiam infantis, no{149} fundo uma grande bondade e um caracter firme.

As primeiras impressões d'André tinham tido um certo exito pelo seu paganismo, uma maneira leve de escrever, lembrando a finura que teem os mestres florentinos nas suas medalhas nitidas.

Dissera recantos de paisagens, brilhos de mares azues, figurinhas que tinham passado, subtis, pela sua vista, desaparecendo logo, na rapidez das viagens, no imprevisto das caminhadas pelos campos serenos da Toscana.