—Impossivel salvar-se...

—O fisico não atina com o remedio...

Era a Rainha, que, como certos arbustos que morrem, depois de florir, finava-se ao dar á luz a pequena princeza.

A dôr tragica e calada do moço Rei! Nem uma palavra se lhe ouviu da bocca crispada. Nem um grito na luctuosa camara onde carpiam as senhoras da côrte. De joelhos junto{168} ao leito magnifico, onde se postára depois de ter cerrado os largos olhos garços, o Rei chorava em silencio. Os frades diziam monotonamente, como um esvoaçar de insectos, as resas rituaes. Um ou outro soluço, a desolação d'um ai, cortavam a funebre quietude; mas o rei, entre as suas as mãos finas e amarellecidas da Rainha, não tinha um grito, nem uma palavra. Nos labios da morta ainda havia o sorriso, esboçado a olhar para o marido...

O Rei mandou retirar a todos do quarto. Quiz elle proprio vestir aquella que tanto amára. Beijou-lhe os olhos de palpebras azuladas, beijou os cabellos, que na imprecisa penumbra, tinham um brilho d'oiro... Outra vez caiu de joelhos.

Então as palavras de dôr, abundantes, sairam dos labios tanto tempo represos. Disse-lhe o grande amôr e a grande magua. Prometteu-lhe viuvez eterna; que a sua alma se conservaria fechada, como um relicario, a guardar a imagem quasi divina da mulher primeira amada, unica...

Longo tempo se conservou, as mãos frias da morta entre as suas, no quarto silencioso, onde apenas os seus queixumes davam uma nota de vida. No lampadario já se extinguiam as luzes, que, de quando em quando lançavam, altas, dentadas, labaredas azues e d'oiro.

A madrugada clara entrou pelas janellas,{169} como um chilrear de passaros. A vida renascia, musical, da noite escura. No coração do Rei a dôr fizera uma sombra eterna.

Entre os brandões acesos levaram o cadaver, vestido por mãos mercenarias, que as do Rei nem tinham forças para o peso dos anneis...

Filas de bispos mitrados, graves e compungidos, seguiam o feretro atravez as ruas da cidade e por estradas risonhas, até o convento magnifico em cuja egreja jaziam todos os numerosos reis e rainhas da casa real; seguiram os fidalgos como seus escudeiros de lucto; seguiu, commovido, o povo, que pranteou a morte d'aquella que fôra linda e nas ruas sorria ás criancinhas pobres, que lhe pediam a benção...