Era uma comprida fila que se perdia nas corcôvas da estrada. As confrarias, os conventos mandaram os irmãos e os frades, com as insignias. E áquelle radioso sol d'agosto, que punha na athmosphera uma tremura, tudo resplandecia, como uma apotheose. Brilhavam as lanças, brilhavam os ouros, brilhavam os báculos e sobretudo refulgiam as insolitas pedrarias dos bispos, caminhando magestosos e tristes. E o psalmejar dos padres, ouvido ao longe, perdia a nota de lamento: era como o ultimo echo d'um canto de victoria, no dia glorioso...
No palacio quasi deserto, o Rei ficára no quarto vazio. Como arredal-o de lá? De joelhos{170} ainda, pensava talvez ter entre as suas mãos os dedos finos da Rainha morta. De quando em quando um soluço parecia estalar a garganta. E as lagrimas desciam pela face, iam morrer na barba perfumada.
Olhava para o grande espelho, onde a Rainha costumava ageitar, á noite, os cabellos fartos. Lembrava-se de ter alli visto o gesto gracil, aquelle pó d'oiro, e o corpo que tinha a frescura e a elegancia d'uma flôr que vae a desabrochar. Porque não guardam os espelhos as imagens reflectidas? Teria alli, viva, a Rainha, na attitude de compôr as sedas das suas tranças... Mas os espelhos deixam tudo escapar. Assim os lagos não guardam, no seio ligeiro, voluvel, o vôo curvo das pombas que fogem...
E para alli se quedava, vivendo do passado, como um velho... Que importava que as guerras na fronteira distante assolassem o paiz? Que tinha que os povos gemessem, que as catastrophes aluissem as cidades fulgentes ao luar e ao sol nas suas cathedraes preciosas, que os rios, saltando os leitos, invadissem as aldeias claras? Que importava a vida se elle só vivia da morte? Mergulhassem os outros no passado os olhos cubiçosos e vivessem de tanto explendor de batalhas e de riquezas que listravam de clarões a historia do reino afortunado. Na miseria presente, que se recordassem!{171}
A propria princeza entre as mãos das açafatas, delicada e linda, ia vivendo, nos grandes olhos verdes, uma tristeza, como quem sabia... No palacio sevéro, lugubre, sem os tinidos das alabardas e os mantos que formavam lagôas, nas alcatifas, ninguem se via. E ella, a pequena princeza, não aprendera a rir e tambem não chorava.
Uma vez ou outra, ao atravessar silencioso e só as camaras, o Rei via a princeza; machinalmente as suas mãos pallidas passavam pelos cabellos loiros da filha. E seguia, taciturno, sempre diante de si a imagem d'aquella que morrera a sorrir e o esperava na crípta silenciosa do austero templo gothico.
Ensinavam as aias á princezinha, não relatos crueis de contendas, nomes temidos dos reis seus avós, mas historias maravilhosas. Diziam-lhe que á noite, os grandes calices das magnolias abriam-se, com um ruido musical. E de dentro saiam côrtes de fadas minusculas, vestidas com mantos tecidos com raios de luas-cheias. Pelo parque andavam livremente entre as roseiras explendidas... Contavam-lhe que á meia-noite, as arvores se desprendem da terra e vão beber, como os gados, ás limpidas ribeiras. Ella sabia que entre si os animaes falavam, as andorinhas nos bicos dos telhados, os cisnes brancos nas lagôas azues, os pavões sobre as arvores, quando espalmam as enjoalhadas{172} caudas, as pombas brancas á beira dos poços, sobre o marmore polido.
Conhecia os trabalhos ligeiros dos gnomos, que nas cavernas escuras trabalhavam o oiro e o ferro; distinguia os alfagemes, que afiam as espadas mortiferas, e os ourives, que afilagranam os metaes.
Diziam-lhe as lendas floridas dos amantes, de cujos tumulos saem sorrisos carregados de rosas, que n'um arco perfumado se abraçam a misturar os perfumes...
Mas a pobre princeza, apenas nubil, não conhecia a Vida, nem o Amor, nem o Riso.