Um dia, pois, a princeza, com as pequenas aias, desceu ao jardim do sumptuoso palacio.

Misterioso por tantas sombras, tantos caminhos que se contorciam por entre rugosos troncos, tantas aguas que cantavam nos marmores brancos, tantas flores que dentre a verdura perfumavam...

De socalco em socalco abriam-se, em leques, as escadarias; saltavam as aguas das cascatas, despenhavam-se as trepadeiras floridas, rastejavam as hervas, rosas de toucar e jasmins lançavam os ramos frageis.

Junto ao palacio o jardim era cuidado, como uma cabeça garrida. As largas flores espargiam os aromas; os repuxos finos esguichavam fios de prata, pelas ruas areiadas passavam, magestosos os pavões solemnes... Mas depois, começava{173} a floresta. As altas arvores luctavam, estorcidas: algumas subiam, magras como pedintes, n'uma aspiração, muito direitas para o sol. Outras torciam-se, esta sem forças, esgarçava-se mirrada. E a hera crescia, vestia os troncos, até nas arvores secas vicejava, como uma mascara risonha n'uma face de morto. Alguns troncos de seculares carvalhos continham grutas escuras. E os passaros, dentre os galhos, ao ruido dos passos, levantavam vôo, alvoroçados.

Era o «Caminho das Rosas», que alli levava. Rosas de toda a côr: ensanguentadas, brancas, côr de mel e de marfim, côr de carne, rosas para florir peitos de danados e para tranças de primeiras commungantes, rosas que abrem chagas no verde das roseiras, outras que chamam beijos, como colos nus em festas illuminadas, rosas que teem toda a pureza d'uma noiva, outras toda a garridice d'uma amante, rosas para tumulos, brancas, mortas quasi, rosas cheias de vida, que pareciam querer saltar das hastes, e offerecer-se, lascivas...

Vinha do seu conjuncto um perfume entontecedor. Por tanto aroma lançarem no ar, nas noites quentes d'agosto, algumas damas da côrte caiam, em deliquio. E todas tinham medo d'aquelle portico encantado, que parecia abrir para um paraiso, mas que podia descer a algum abismo.{174}

Foi para ali, que, correndo atraz d'uma borboleta, se dirigiu a princeza. Em vão lhe prenderam as vestes de seda os espinhos das roseiras, em vão a chamaram as pequenas aias; mesmo foi debalde que a voz secca da camareira-mór gritou por ella, entre respeitosa e auctoritaria. A princeza, a rir, córada, continuava atraz da grande borboleta, deixando tiras de seda nos galhos em flôr que, sacudidos, lançavam sobre a sua cabeça petalas finas.

Ninguem, comtudo, se atreveu a ir atraz d'ella.

Corria no palacio e na cidade uma lenda extranha sobre a floresta, que continuava o jardim, depois do perfumado «Caminho das Rosas».

Dizia-se que n'uma epoca remota, no tempo em que pela cidade luminosa e culpada ainda passavam os santos ensinando a Lei e edificando as gentes, governava o reino uma rainha pagã. No jardim murmuroso e claro havia fremitos de beijos. Nas aguas dos tanques brilhavam corpos ligeiros. Nas sallas que as tochas e os lampadarios illuminavam, mulheres quasi nuas dançavam levemente ao som de musicas alegres. E o vinho levava das taças lavradas ás boccas vermelhas a alegria e o Amôr.