Por toda a parte havia flores, havia risos, havia festas. Os cavalleiros, nas justas, paravam; morriam as scentelhas em que ardem as espadas no choque dos combates, e das boccas{175} frescas saíam vozes a cantar a formosura das florestas, a elegancia das mulheres, a limpidez das aguas cantantes.

Um dia, um santo bispo entrou, andrajoso e cançado, a pedir pousada; a rainha, ao vel-o tão miseravel, mandou-o recolher no canil, com os creados das matilhas. Os cães, piedosamente, foram lamber os pés em sangue do santo homem.

Mas a Rainha não o quiz receber. Como de S. João Baptista, as palavras subiam para as portas, asperas e condemnatorias. Toda a noite a sua voz rude annunciava o castigo.

A Rainha, cançada de ouvir a voz rouca, mandou-o açoitar e expulsar do palacio, em que reviveu a alegria. Mas durou pouco, porque um dia uma lingua de fogo saiu da terra, e agitou-se no ar, de sangue e oiro; espavorida, toda a côrte fugiu, para não mais voltar, para a floresta misteriosa, que ninguem sabia ao certo onde acabava.

E todo o reino teve medo, como d'um inferno, d'essa floresta que começava por uma extranha floração de rosas e terminava porventura pelos eternos gelos, pelas labaredas, talvez...

Por ali seguira a princeza, a rir-se. Em vão o Medo guardou durante seculos a misteriosa entrada. Em vão as rosas se agitaram, como turibulos, para a entontecer com o perfume, e os galhos a prenderam, e os espinhos lhe rasgaram{176} as rendas e as sedas. Foi correndo. A borboleta enorme parecia uma joia a fugir por entre as flores. A princeza era como uma ave, delgada e linda, atraz d'ella.

Subitamente a paisagem modificou-se. Do dia glorioso que estava no jardim do palacio, nasceu um crepusculo doirado, como um velho damasco amarello.

A luz parecia um convalescente a rir-se por cima das arvores, pelos tanques quietos, pelos marmores. E as folhas das arvores tremiam fazendo brilhar os filamentos d'oiro. As flores tinham todas um aroma ligeiro, como os frascos de perfumes, que durante longos annos se guardam, vasios, nos armarios fechados. Eram brancas todas as rosas e as petalas enrugadas, como pelles finas de velhas, que viveram nos claustros, entre cosmeticos.

Quando a princeza deu pela mudança da luz e da paisagem lembrou-se da lenda pavorosa que afastava as gentes da floresta e do Caminho das Rosas.

—Onde estão as linguas avidas do fogo? perguntava-se. Onde os gelos que prendem e matam? Onde os dragões?