A paisagem era toda serena e d'um riso triste. Dir-se-iam anemicas as flores palidas, as anemonas de seda velha, de cera transparente, que por toda a parte deixavam cair, de cançadas, as petalas finas. E nos caminhos a areia preta{177} era crusada pelos veios das hervas rasteiras, coberta pelos galhos dos arbustos, aqui sacudiam-se rosas, alem os geranios frescos. Pelos troncos direitos das arvores a hera enroscava-se, a subir. Nas curvas dos tanques, dormiam os nenuphares. Nos marmores dos poços as trepadeiras cobriam os lavores. Havia um silencio leve, por onde perpassava o espirito d'um canto, como um aroma que a brisa traz de longe.
Os templos tinham as portas abertas. A princeza para elles entrou, a medo, a espreitar, afastando os loureiros e os mirtos, que quasi fechavam a entrada.
Ninguem. Apenas os deuses de marmore, calmos, esperavam as oferendas. Mas as aras dos sacrificios tinham humidade da lavagem recente. As cinzas eram quentes; no templo d'uma deusa havia grinaldas de rosas e pennas de pombas brancas soltas pelo chão.
Alguem ali vivia, pensava a princeza. Mas quem? Genio malfazejo, que a mataria, ou fada carinhosa? Seria ali que nas noites claras virião passear as côrtes sumptuosas que moram nos calices das magnolias?
Habituada ao silencio sombrio da côrte não a inquietava aquelle silencio leve. E continuava a explorar a encantada floresta, onde parecia agitar-se um simulacro de vida.
Como um coração que vive da saudade dos{178} tempos remotos, assim ali parecia existir a repercursão d'uma vida antiga. A cada passo a princeza encontrava signaes de sandalias, flores cortadas, uma fita, indicios de vida. Mas d'onde partiam? Quem os deixava?
Viveria ali, n'aquelle paiz de luz anemica, uma côrte de feiticeiras tragicas, que esperam, para sair das cavernas, as badaladas lugubres da meia-noite? Mas não. As feiticeiras escolhem as montanhas altas e escarpadas onde chegue o canto soturno do mar revolto, sem arvores que impeçam o vôo incendiario das blasphemias e das imprecações para o ceu sem lua e sem estrellas.
Ia caminhando a princeza. Via ribeiros claros que escorregavam sobre seixos brancos; lagôas azues, fachadas de templos, quincuncios bordados por buxos altos. E as ruas seguiam entre filas d'altas arvores formando tunel, até serem cortadas por novas ruas, com arvores ou flores.
Cançou-se a pequena princeza. Um vago terror a invadiu. Quiz regressar ao palacio, mas não podia. As ruas d'arvores, os templos, os ribeiros, as estatuas, sucediam-se. Parecia-lhe estar n'um complicado labirintho. Como conseguir o magico fio?
Uma noite, que parecia artificial, espalhara-se pelo ceu e envolvia as coisas. Á tonalidade doirada, succedia uma tonalidade branca,{179} como se tudo fosse feito de prata. A princeza sentou-se n'um banco, a chorar.