Ouviu de longe como um passar de brisa leve por harpas suspensas em arvores. Escutou. Era um canto que um côro fazia subir, ligeiro como um fumo. Mais se approximava. As vozes eram cançadas, mas limpidas. Cantavam a vida e as festas, o rir das flôres, a alegria das arvores na primavera.
Cada vez se approximavam mais. Dirigiam-se, certamente, para o sitio onde ficára a princeza, um jardim junto d'um templo de marmore verde.
Já via as canephoras, com açafates de flores, seguidas pelas escravas com tamboretes; depois a numerosa theoria de mulheres, com archotes, que, ao queimar-se, illuminavam e perfumavam. Não havia homens. Certamente que vinham para a festa atheniense das Thesmophorias.
Eram as habitantes da floresta. Caminhavam lentamente, as cunharicas fluctuantes sobre as tunicas amarellas. As hidrophoras traziam as urnas na cabeça. N'um gesto gracioso, seguravam-as com uma das mãos; os braços nus eram tão brancos como os marmores transparentes das urnas.
Quando viram a princeza, medrosa, a esconder-se entre as arvores, a procissão parou, as vozes calaram-se, a meio do canto.{180}
Em voz baixa concertavam entre si a resolução a tomar. A princeza ouvia apenas um zumbido confuso, como os das abelhas, quando nos dias quentes se cruzam pelos jardins floridos. Colada a um tronco, palida como um ex-voto de cera, viu com pavor approximar-se d'ella uma das habitantes da floresta. Era porém, tamanha a sua beleza e a sua gracilidade, que o medo tombou do espirito da princeza. Pensava-se ver uma haste florida a andar. Vagarosa, os seus gestos curvos e lentos pareciam fazer nascer no ar quieto uma harmonia...
—Perdi-me aqui! Perdi-me aqui!
—D'onde vens?
—Do palacio. Sou a princeza. As minhas aias não se atreveram. Eu corri para apanhar uma borboleta. A borboleta fugiu. Fiquei sem saber onde estava, que caminho tomar. Isto é tão lindo! Mas faz tanto medo não se saber onde se está!
—E queres voltar? Deixaste teu pae e tua mãe...