—Il faut vivre. Il n'y a pas de sot metier. A Mariam Ringen...

—Aquella judia fanhosa?

—Sim. E que tinha seis dedos em cada pé... Gastou mais de dez mil libras em tres mezes.

—É ante-semita. É bien né, o ser-se ante-semita! O começo da liquidação... E depois, douze dedos. Parecia-lhe menos.

—Contava muito depressa... 12 de cada vez...

—Se é que contava pelos pés!{220}

—Sir Arnold interessa-me. Tenho-o examinado, na batalha. É impassivel. Nunca procura primeiro uma mulher. Aquelle bello corpo d'Apollo adrescente fascina. Os olhos claros, misteriosos, desequilibram os nervos das nossas mulheres. E as opalas cheias de maleficios, que para elle são porte-bonheur, dão um quebranto magico. A terrivel fama de que tão justamente gosa e o precede como uma tenebrosa arauto faz-lhe um halo. Luz do inferno, que importa? É uma aureola. Se não tivesse motivos para ter um tal nome, caluniar-se-ia. É capaz de tudo, até d'uma boa ação... que o não prejudique. Não faz o mal por arte. Para fazer o mal por principio é necessario afirmar. Sir Arnold nada afirma nem nega. Negar é, d'alguma fórma, afirmar. E isso é um esforço que elle se não permite. Se quizesse ser diplomata, estaria hoje embaixador, membro do Tribunal da Haya, ministro dos negocios estrangeiros. Encaminharia a politica ingleza com menos soberba que Salisbury e mais firmeza que Lansdowne, sem a literatura, o romantismo de Rosebery. Nos tempos da vadiagem diplomatica, dos verdadeiros plenipotenciarios—hoje os nossos plenos poderes ficam na secretaria, que nol-os vae mandando por conta e pelo telegrafo—nesse tempo, talharia um imperio para o soberano que o empregasse. Não, para si. Sir Arnold é um egoista formidavel. Julga-se o centro do Universo. Nihil{221} humani a me alienum puto. Nada do que pertence ao homem lhe é alheio, isto é tem direitos sobre tudo, traduz elle. Não tem outra moral.

Nietzche estabeleceu os principios que nelle eram instinto. Cuido que nunca se deu ao trabalho de ler um só volume do discipulo de Stirner...

A conversa não interessava já. O dinamarquez tinha um pouco a mania oratoria. O grupo dispersou-se, pelas salas, onde os pares deslisavam ao som d'uma valsa da moda, langorosa e morbida... Fiquei com elle. Fomo-nos dirigindo para a estufa. O ministro continuou:

—Gósto de sir Arnold... pelo lado scientifico, como filósofo. É um poderoso dissolvente. Todas as dissoluções apressam a evolução. Davis é um força social.