—Na boca d'um ministro d'um paiz monarchico, essas palavras são imprevistas, sorri-me.
—Tenho uma opinião como diplomata e outra como filósofo. Como diplomata, sou conservador, como filósofo, anarchista... mas anarchista com palacios, festas, condecorações... Quando quero pensar como diplomata, visto a farda, ponho duas gran-cruzes, uma para cada lado—tenho a Corôa da Prussia—e todas as placas. Quando me decido a pensar como filósofo, cólo umas barbas postiças, fico em robe-de-chambre. Defronte da minha psyché{222} imperio, dou-me a ideia d'uma Diogenes limpo. O mais usual, porem, é não pensar... Estou dispepético: o pensamento é terrivel para nós. Isto não impede que lhe conte um episodio da vida de Davis. Simpatiso com elle, dou-me até com elle. Conheci-o em Aix-les-Bains ha seis ou sete annos. Estavamos no mesmo hotel. Os nossos aposentos eram seguidos. A sacada era a mesma. Conversavamos muito. Venha para aqui.
Fomos para um canto isolado da estufa onde agonisavam, minadas por um mal estranho, orchideas esverdeadas. Nasciam chagas nas suas petalas recurvas, torcidas, listradas de vergões, varioladas. Sentamo-nos num sofá. O ministro ofereceu-me um cigarro de Nestor Gianaclis, perfumado e adormecedor. Escutei-o.
—Como lhe disse, sir Arnold é um egoista. Quer aumentar o poder, para empregar a formula de Nietzche. Desenvolve energicamente a personalidade, segundo ou contra a moral, é-lhe indiferente, torneando os preceitos dos codigos penaes e os usos sociaes, de maneira a se lhe não fecharem os palcos onde se exibe, os salões cosmopolitas, mais faceis e, sobre tudo, mais indulgentes. Elle não diz como o poeta: «je porte fiérement la honte d'être beau»; não, para Davis não é uma vergonha, pelo contrario, trata de fazer valer, por toilettes e atitudes longamente estudadas, por meios artificiaes, a sua belleza clara, loira, a que os olhos transparentes{223} dão um encanto misterioso, uma sedução que empolga, fascina, arrasta os pobres mulheres que desmaiam, sucumbem, diante desse Apollo adolescente e terno, cuja força se adivinha apenas nas mãos, de dedos firmes, de pelle, apesar dos cosmeticos, um pouco aspera. Viu-o bem? Reparou em como todo o seu corpo harmonioso d'atléta toma atitudes cançadas, como os seus olhos pareciam dissolver-se, ao olhar para a pequena Von Hameghen e a sua boca de labios finos e imberbes, se contraíam para o espasmo d'um beijo? Ha sete annos era o mesmo. Parece que para elle o mundo e os dias se conservam imoveis. Dir-se-hia que essa adolescencia se guarda no gelo. Que pacto teria feito este homem com o demonio?
—Talvez o mesmo que Dorian Grey...
—Bah! Dorian Grey matou Basil... Julga que será Sargent, realista, amando a força concentrada e não a belleza, quem fará o novo retrato magico! Ou Lazló?
Já não ha Basil. Talvez em Hespanha... Sorolla ou Zuloaga... Mas os hespanhoes são naturalistas e republicanos. Veja Ibañez... A «Catedral» liquida em artigo de fundo.
—E Davis? atalhei, pondo um dique á divagação abundante.
O ministro sorriu-se. Certamente que se lembrou do epigrama de Marcial.
—Ah, sim! Davis e Aix-les-Bains. Estou{224} prolixo como o bom Tito Livio. Entro em materia.