Fugimos.

Na noite escura, o lago era azul escuro. Os focos electricos dos caes punham na agua fitas brancas, que dançavam e se quebravam contra as ondas. Pareciam pestanejar as pequenas lanternas vermelhas dos bateaux-mouches. Tudo parecia dormir. Uma brisa ligeira trazia até junto de nós o silencio da cidade. Apenas do Kursaal as luzes coavam-se pelas ramadas e, amortecidas, as walsas que acompanhavam mimambos e acrobatas.

Um de nós disse:

—Talvez fosse melhor não ter visto Chiara. Um com a recordação, de que viu, outro com a imaginação, teem uma imagem mais bella, por incompleta, e em parte mentirosa, da dançarina e do seu bailado. A melhor maneira de gosar é criar imagens, viver dentro de nós, alheio ao mundo. Recordando, vive-se na imprecisão,{238} sem as arestas. Tudo mergulha num nevoeiro, que, deformando a real aparencia, nimba de misterio; desejando, ilumina-se mais. Viver deve ser recordar e desejar.

—Pode-se viver recordando e desejando apenas, no momento presente; mas para recordar é necessario ter vivido, para desejar é preciso conhecer. O desejo ilimitado põe a angustia na alma. É mister alguma coisa de definido a desejar.

—Quando chegamos á nossa edade, já vivemos tudo. Conhecemos o efemero feminino. Andámos com o coração por todos os amores, por todas as angustias. Provámos todos os crús, atravessámos mares, dormimos sob todos os ceus. Podemos recordar. E, como conhecemos tudo, podemos escolher e desejar.

—A vida do homem é, como a de toda a natureza, um continuo movimento, fluxo e refluxo permanentes.

—Então é preciso agir?

—É fatal.

—S. Simeão Stylita gastou anos sobre uma coluna, a orar. Vinham de desencontradas partes os crentes á espera de milagres. Esposas estereis tocavam no plinto, certas de que tempo depois amamentariam o filho desejado; os leprosos, os cegos, os atacados do «mal divino», arrastavam-se pelos desertos queimados, até á coluna onde o santo resava... E elle, indiferente,{239} como indiferente era aos soes asperos, ás ventanias e ás chuvas, continuava a orar. Viveu dentro de si. A vida deve ser toda interior.