—A vida do espirito é toda interior, como a vida digestiva. Precisamos do mundo exterior para d'elle apreendermos as imagens e os alimentos.

Ter comido, é melhor que comer. Ter gosado é melhor que gosar. O momento da posse é doloroso e vão. É melhor recordar.

—Recordar implica esquecer. E quando das imagens não ficar senão uma mancha, como preencher a vida?

—Desejando.

—Mas a faculdade de desejar desapparece com os annos. O velho dos Goncourt, quando no restaurante lhe perguntam:—O que deseja? responde:—Desejava ter um desejo. Viver é agir. Colher todas flores e todos os espinhos, violar todos os cimos, mergulhar em todos os lodos, sentir intensamente, pensar todas as doutrinas, apreender do Universo tudo o que fôr possivel, ver tudo, ouvir tudo! Viver é entrar na harmonia do Mundo! É ser como o eucalipto, subir para o sol, triunfalmente, lançar ramadas por todos os lados, espalhar avidas raizes egoistas e crueis!

—Viver é recordar e desejar. A vida deve ser feita por nós, como a composição d'um quadro{240} é arranjada por um pintor. Não devemos ser o espelho de mostrador que refléte toda a rua, mas a psiché do boudoir d'uma mulher elegante que só refléte atitudes graciosas, sedas, rendas, brilhos de pedrarias...

—Viver...

Despejava-se o Kursaal. Apagaram-se as lampadas. Fomos para a estação esperar o expresso de Paris.

FIM

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