No outono passado encontrou o autor numa livraria da California um livrinho com o seu nome no frontispicio—livro que êle não sabia que existia, que não escrevera, nem adornara com o titulo que o encimava. Não repele porêm essa erradía publicação, extraída de apontamentos de uma alocução sua que alguem lhe ouviu e antes lhe parece ter já feito algum bem; mas devido ás imperfeições que lhe encontrou, julgou acertado fazer dela uma edição mais completa. O tema, como os outros que o precedem nesta série de alocuções, representa sómente um aspecto do vasto assunto—aquêle que é aplicável ao homem. O claro-escuro é, naturalmente, adequado a esta concepção. E pedimos á benévola atenção do leitor para se manter dentro dêstes limites, afim de não estranhar o ficarem no escuro alguns pontos que a teologia, sempre, e por direita razão, nos ensinou a fazer sobresaír.

Uma simples prédica, que um amigo nosso dirigiu a alguns modestos habitantes duma região montanhesa, que costumamos frequentar, foi que primeiramente chamou a nossa atenção para o lado prático desta solução do problema mais importante que existe na tentativa da vida cristã.

O que se segue, é em grande parte devido á manhã daquêle Domingo.


A mudança que é possivel na vida

«Digo alto e bom som, que se houvesse algum grande Poder, que conseguisse fazer-me pensar sempre o que é verdadeiro, e fazer o que é direito, com a condição de eu me tornar numa espécie de relógio a que se desse corda todas as manhãs, aceitaria imediatamente êsse oferecimento»

São de Huxley estas palavras. A infinita aspiração e a infinita dificuldade de se ser bom é um assunto tão antigo como a própria humanidade. Não ha ninguem de cujo sentir íntimo não tenha brotado esta confissão, e que não estivesse pronto a dar a sua vida, se lhe fosse possivel «aceitar o oferecimento» de se tornar melhor.

Vou eu propôr fazer-vos êsse oferecimento. Muito a sério, sem vos tornardes numa espécie de relógio, podeis vir a consegui-lo; pois debaixo das condições devidas é tão natural ao caráter tornar-se belo, como o é á flôr. E se não houver nêste mundo mecanismo algum que o realize, é porque ficou esquecida a dadiva suprêma, que o mundo poderia receber. Foi para isto simplesmente que o homem foi criado. Browning diz: «o homem foi feito para progredir, e não para parar» Ou nas palavras dum livro mais antigo: «Aquelle a quem Elle primeiro conheceo, tambem predestinou para ser conformado com a Imagem de Seu Filho.»