Começarei nomeando e em parte regeitando alguns processos que se costumam empregar para obter vida mais elevada.
Estes processos estão longe de serem errados, e aplicados devidamente, podem mesmo ter bastante valor; e se nos aventuramos a deprecià-los, é por não produzirem um resultado absolutamente perfeito.
O primeiro método imperfeito é contar-se com a própria Resolução. Só na fôrça de vontade, e em periodos isolados de recolhimento espiritual, não é que está a salvação. O esfôrço, a luta, mesmo a agonia, teem o seu logar no Cristianismo, mas são aqui descabidos. Aconteceu no outro dia ficar parado no meio do Oceano o «Etruria» a bordo do qual eu viajava: tinha-se desarranjado qualquer coisa nas máquinas. Havia a bordo uns quinhentos homens válidos; julgais que se nos reunissemos todos e nos puzessemos a empurrar o mastro, impeliriamos o navio para diante? Quando qualquer de nós tenta santificar-se pelo próprio esfôrço, é o mesmo que procurar fazer andar o seu navio, empurrando o mastro com toda a fôrça. Seria como se alguem, que estivesse prestes a submergir-se, diligenciasse erguer-se para fóra da agua, agarrando pelos próprios cabelos. Jesus Cristo como que ridicularizou êste meio, dizendo: «qual de vós pode acrescentar um covado sequer á sua estatura?» A única redenção que ha no método de confiar no próprio esfôrço é que, os que o tentam, ficam para logo convencidos de que por esse modo nunca chegarão a atingir o seu alvo.
Mas ha quem tente outra experiência e diga: «não é êste o meio de que eu uso. Trabalho debaixo dum princípio, por ver que é loucura combater nas trevas. O meu plano não é desperdiçar a energia em tentativas de acaso, mas tão sómente concentrà-la na destruição dum único pecado. Tomando cada pecado por sua vez, e destruindo-o com tenacidade, espero chegar por fim a extirpà-los a todos.» Contra isto ha infelizmente quatro objecções. A primeira é que a vida é curta, e o número dos pecados infinito. Depois ocuparmo-nos de pecados isolados, é não querermos prescrutar o resto da nossa natureza. Em terceiro logar, o combate com um único pecado não afecta a raiz e a origem do mal; pois se fôr obstruído apenas um dos canais do pecado, aponta-nos a experiência uma inundação quasi certa por outro lado. A conversão parcial é quasi sempre acompanhada dum certo escoamento moral, porque a energia acumulada acaba por rebentar; e êste último estado da alma pode ser pior do que o primeiro. E depois a religião não consiste em fazer deter êste ou aquêle pecado; o caráter perfeito nunca poderá ser obtido por meio de córtes.
Ha tambem quem proclame: «Se assim é, não tentarei aniquilar os pecados um por um, praticarei exactamente o contrário: copiarei as virtudes uma por uma.» A dificuldade dêste método consiste em êle poder tornar-se mecânico; distingue-se sempre uma gravura duma pintura, uma flôr artificial duma flôr natural. Copiar as virtudes uma por uma é aproximadamente o mesmo que arrancar os vícios um por um; e o resultado é quasi sempre um caráter agitado e incongruente. Definiu alguem a pessoa vaidosa e ensoberbecida por «uma criatura que está nutrida demais para o seu tamanho». Encontram-se ás vezes Cristãos desta ordem—por um lado nutridos demais, e por o outro, miseravelmente definhados e enfraquecidos. Por exemplo, o resultado de se copiar Humildade e associà-la a uma vida de teor acentuadamente mundano, é simplesmente ridículo. Um exaltado advogado da Temperança é muitas vezes a mais ínfima das criaturas, brilhando unicamente por essa virtude e esquecendo-se totalmente de que a sua Temperança o torna pior e não melhor do que os outros. Isto são exemplos de belas virtudes, deturpadas por as associarem a vis companheiros. O caráter é uma unidade, e todas as virtudes teem de caminhar juntas para poderem formar o homem perfeito. E não obstante é êste método de santificação verdadeiro no fim a que aspira, no que é deficiente é na maneira de o executar.
Ha ainda um quarto método, que nem mesmo seria preciso nomear, pois é uma variante dos outros já mencionados. É aquêle de que se serve o adolescente, e a sua pureza de intenção faz-nos considerar quasi como uma profanação o ir tocar-lhe. É manter um livro de apontamentos para todos os dias da semana, com uma lista de virtudes, deixando entre elas espaço para se fazerem quaisquer observações. Provido de muitas regras austéras, em guisa de prefácio, conserva-se o livrinho em logar secreto, e de tempos a tempos, ao declinar do dia, vem a alma comparecer perante êle, como perante um tribunal secreto. Este viver por um código foi o método de Franklin; e creio que milhares de pessoas nos poderiam confessar que conservam penduradas no seu quarto, ou guardadas em gavetas bem seguras as regras que num dia memorável traçaram, para por elas modelarem a sua vida. Este método não é erróneo, o seu êxito é que é muito deficiente; falha geralmente por uma razão bem material—por um belo dia nos esquecermos das regras.
Todos êstes métodos de que fiz menção, o de confiar no próprio esfôrço, o de mortificar o próprio ser, o método de imitação e o do livro de apontamentos, são absolutamente humanos, absolutamente naturais, mas tambem absolutamente ignorantes e por isso mesmo absolutamente inadequados. Mas não quero dizer com isto que se devam abandonar. O mal que êles causam é antes desviar a atenção do verdadeiro método eficaz, e procurar obter um bom resultado á custa daquêle que é realmente perfeito e de passamos a tratar.