É o Reino dos Céus!

Para quê afastà-los ...

Se para obtermos a mansão de Deus

Só temos que imità-los?»

Teria sido inefável ter vivido naquêle tempo! E todavia se Cristo tivesse de voltar ao mundo, poucos seriam os que teriam a probabilidade de O verem. Ha milhões de vassalos nêste pequeno país, que nunca viram o seu rei; e haveria milhões de vassalos de Cristo que se Ele aqui estivesse, nunca chegariam a poder falar-Lhe. A nossa intimidade com Ele é, como toda a verdadeira intimidade, uma comunhão espiritual. Toda a amizade, todo o amor, humano e divino, é puramente espiritual. Foi depois da sua Ressurreição que Ele teve maior influência, mesmo nos Seus discípulos; por isso não obsta verdadeiramente a reflectirmos o caráter de Cristo o não termos jámais estado com Ele em contacto visível.

Havia uma vez uma donzela, dotada de um caráter tão bondoso e perfeito, que era o enlevo de todos que a conheciam. Pendia-lhe do colo uma medalha de oiro, que ninguem tivera jámais a permissão de abrir. Um dia porêm, num momento de insólita confiança, deixou que uma amiga sua tocasse na mola da medalha e viesse a conhecer o segrêdo que ela encerrava. Estavam lá escritas estas palavras—«a quem eu amo, não o tendo visto.» Era êste o segrêdo da sua bela vida. Tinha sido transformada na mesma Imagem!

Ora isto não é imitação, mas uma coisa muito mais profunda. A diferença no processo, bem como no resultado, pode ser tão grande, como a que existe entre a fotografia obtida pelo infalível lapis do sol e os cortornos rudes traçados pelo giz dum rapaz da escola! A imitação é mecânica, o reflexo orgânico; uma é ocasional, o outro habitual. Num caso, o homem aproxima-se de Deus e imita-O; no outro, aproxima-se Deus do homem e imprime-se nêle!

«Fazei de Cristo o vosso companheiro mais constante»—é o que isto para nós significa na prática. Permanecei mais sob a Sua influência do que sob outra qualquer influência! Dez minutos passados todos os dias na Sua companhia, dois mesmo, se forem face a face e com o coração aberto, tornar-vos hão diferente o dia inteiro. Cada caráter tem a sua mola íntima; que seja Cristo essa mola! Cada acção tem uma nota tónica; que seja Cristo essa nota! Recebestes hoje uma certa carta, e immediatamente vos puzestes a escrever a resposta, que quasi incendiou o papel. Amontoastes nela os adjectivos mais crueis que sabieis, e enviastes essa carta, sem receio da obra desoladora que ela ia executar. Fizéste-lo, porque a vossa vida estava pósta em clave errada. Tinheis começado o dia com o espelho colocado em má posição. Amanhã, quando surgir o dia, voltai para Ele o vosso espelho, e todo o vosso aspecto mudará, até mesmo para o vosso inimigo. Seja o que fôr que fizerdes, haverá uma coisa que não poderieis ter feito—escrever aquela carta. Pode o vosso primeiro impulso ser o mesmo, pode a vossa opinião ser identica, mas se tentardes escrevê-la, a tinta secar-se-vos ha na penna e ficareis sem vos vingardes; mas ficareis tambem maior, mais Cristão! Durante todo o dia prestarão as vossas acções, mesmo nas suas mais ínfimas minudências, homenagem àquela visão da manhã. Ontem, pensastes principalmente em vós; hoje, se encontrardes pobres, darlhes heis de comer. Os que forem desamparados, os que estiverem tristes, os que íam sucumbir á tentação, reunir-se hão em volta de vós, e a todos acarinhareis. Onde estava toda esta gente ontem? Onde estão hoje, mas não os vieis; é á luz reflexa que se veem os desgraçados. A vossa alma não está hoje no logar habitual: «estão visiveis as coisas que se não veem.» Ha algumas horas que estais vivendo a Vida Eterna; pois a vida eterna, a vida da fé, é simplesmente a vida considerada mais elevadamente. A fé não é mais do que uma atitude, um espelho pôsto no logar devido.

Quando o dia terminar, e á noite vos puzerdes a examinà-lo, admirar-vos heis do que fizestes. Não dareis por terdes procurado, imitado ou sacrificado qualquer coisa, dareis por Cristo, dareis por Ele ter estado convôsco, por sem coacção terdes sido coagido, por a revolução se ter efectuado sem emprêgo de fôrça, sem ostentações, sem alarido. Não vos felicitareis de terdes feito alguma grande proeza, conseguido grande êxito pessoal, ou acumulado um fundo de «experiência Cristã» para tornardes a obter o mesmo resultado; o que sabeis é que existe a «glória» do Senhor. E o mundo fica-o tambem sabendo, se o resultado fôr verdadeiro; porque a olharmos para um espelho, não é o espelho que vêmos, nem é nêle que pensamos, mas naquilo que êle reflecte. O espelho só chama a atenção sobre si, quando ha nêle algumas manchas.

Que isto é real, e não imaginário, que esta vida é possivel aos homens, e que ha presentemente alguem que a viva, é simplesmente um facto biográfico. Dentre mil testemunhos não posso deixar de citar um. As palavras seguintes são duma das mais altas inteligências do século dezenove, dum homem que como poucos suportou o pêso dos encargos do seu país, e que, não no crepusculo da velhice, mas em todo o esplendor da sua glória, fez ao mundo a confissão que passo a citar com pouquissimas omissões.