«Desejo esta noite falar um pouco, mas êsse pouco que desejo falar, é do sagrado nome de Cristo, que é a minha vida, a minha inspiração, a minha esperança e o meu apoio. Não posso deixar de me deter a olhar para o passado. E desejo dar testemunho, como se nunca o houvera feito, de que é, não só pela graça de Deus, mas pela graça de Deus manifestada em Jesus Cristo, que eu sou o que sou. Reconheço a sublimidade e a grandeza da revelação de Deus, como Eterno Pai de nós todos, como Aquêle que fez os Céus, que fundou a terra, e que olha por todas as tribus da terra, abrangendo-as na Sua universal misericordia, mas é o Deus que Se manifesta em Jesus Cristo, que Se revela pela Sua vida, que Se dá a conhecer pelos Seus sentimentos, pelas Suas palavras, e pelos Seus actos, é êsse Deus que eu desejo confessar esta noite, e de quem desejo dizer: “pelo amor de Deus em Jesus Cristo, eu sou o que sou.„

«Se me perguntardes precisamente o que quero dizer com isto, direi francamente, que mais do que a para mim valiosa influência de meu pai ou de minha mãe, mais do que a influência social de todos os membros da casa de meu pai, e, tanto quanto o posso dizer e sentir, mais do que todas as influências sociaes de todos os géneros, foi Cristo que formou e modelou o meu espírito. Os meus ideais ocultos do que é belo provieram-me de Cristo, bem como quasi todos os meus pensamentos do que é viril, nobre e puro. Ha muitos homens que se teem educado a si próprios lendo as Vidas de Plutarco, e pondo na sua frente um ou outro daqueles varões ilustres que em diversas épocas adquiriram celebridade; e reconheceram que êsses homens célebres tiveram nêles verdadeiro poder. Eu por mim não tenho a consciência de qualquer poeta, filósofo, reformador, general, ou outro qualquer grande homem ter permanecido na minha imaginação e no meu pensamento como o puro e singelo Jesus Cristo. Ha mais de vinte e cinco anos que instintivamente recorri a Cristo afim de obter a medida e a regra para todas as minhas acções. Todas as vezes que me tem sido necessário, tenho procurado—e por ultimo quasi espontâneamente—refugiar-me na Sua intimidade, e nos primeiros tempos via-O pela fôrça da imaginação, em frente de mim, a fixar-me, meigo e sereno. Parecia quasi deslisar da Sua face a influência que me indicava o verdadeiro meio de dominar a ira, de submeter o orgulho e de vencer o egoïsmo; e foi de Jesus Cristo manifestado á minha concepção íntima, que eu hauri mais ideais, mais modêlos e mais influências, do que doutro qualquer caráter humano.»

«E ainda ha mais. Sinto que é de Jesus Cristo que tem emanado cada pensamento que me torna o Ceu em realidade e que me suavisa a estrada que ha entre mim e o Ceu. Todas as minhas concepções dos progressos da graça na alma, todos os passos pelos quais a vida divina se desenvolve, todos os ideais que pairam por sobre a esfera bemaventurada que nos aguarda alêm da campa—tudo isto me tem sido transmitido do Salvador. A vida que agora vivo na carne, vivo-a tambem pela fé do Filho de Deus.»

«E ainda não é tudo. A pesar do meu futuro incluir todos êstes elementos que me vão fazer da vida terrena um conjunto deleitoso, o que o verão é, comparado com todos os seus produtos terrenos—flores, folhas e ervas—é Cristo, comparado com todos os Seus produtos no meu espírito e na minha alma. Todas as virentes flores e folhas da símpatia, todas as alegrias exuberantes que do meu coração de Cristão brotam presentemente e hão de ainda vicejar no futuro, são para mim o que as flores e as folhas do verão são comparadas com o sol que vivifica o verão. Cristo é o Alfa e o Omega, o princípio e o fim da minha vida mais elevada!»

«Quando leio a Bíblia, aproveito muito do Velho Testamento e das passagens do Novo Testamento devidas a S. Paulo, mas a pesar de tudo, sinto que para mim o fruto da Bíblia é Cristo. É por isso que a leio, por isso que a acho digna de ser lida. Tenho sentido verdadeira sêde de ser amado de Cristo. Todos vós sabeis o que é ter sêde de amor; o nosso coração não fica satisfeito emquanto não obtêm mais do ente estremecido. Tem havido ocasiões em que tenho tido uma sêde inexprimível do amor de Cristo. Nunca é forte a minha percepção do pecado, quando penso na lei, mas é forte, quando penso no amor—se é que ha diferença entre lei e amor. Quando me aproximo de Jesus Cristo e desejo ardentemente ser amado, é que sinto mais vivamente a minha asimetria, a minha imperfeição e a minha carência absoluta de merecimentos e de virtudes. O caráter e o proceder nunca se me representam tão claramente, como quando em silencio me curvo na presença de Cristo, revelada não em cólera, mas em amor, e nunca ambiciono tanto ser amável, para poder ser amado, como quando tenho presente esta revelação de Cristo.»

«Ao examinar aquilo que tenho experimentado, a parte da minha vida que mais me salienta, e de que me lembro com maior vivacidade, é exactamente aquela que de alguma fórma tem andado ligada a Cristo. Tudo o mais é palido e frouxo, como que nuvens a encobrirem o horizonte! Doutrinas, sistemas, medidas, métodos, como quer que se chame a necessária parte mecânica e externa da adoração;—a parte que os sentidos reconhecem—tudo parece ter emurchecido e caído, como cáiem as folhas quando o verão findou; mas a parte que me ligou poderosamente a Cristo, essa permanecerá.»

Pode alguem ouvir esta música, com a impressionante repetição do nome de Cristo, e ficar insensível á emulação, ou ao desejo de o imitar? E antes de vivermos assim, ainda não tinhamos vivido.