A primeira experiência

Reduzis então a religião a uma amizade vulgar? Amizade vulgar? Quem fala em amizade vulgar? É coisa que não existe. Não ha no mundo palavra mais sublime. A amizade é a coisa mais próxima da religião que nós conhecemos. Deus é amor. E pôr a religião a par da amizade é simplesmente dar-lhe a mais alta expressão que o homem pode conceber. Mas se pôr dúvidas a uma «amizade vulgar» representa um protesto contra o falar-se em termos ininteligíveis da coisa maior e mais santa que ha em religião, então receio que a objecção seja bem real. Os homens estão sempre á procura de mistério quando se fala em santificação, dalgum mistério diferente daquêle que será sempre misterioso em toda a parte em que o Espírito opére. Imaginam que ha de haver algum segrêdo, alguma experiência oculta que só os iniciados conhecem, e milhares de pessoas vão todos os Domingos á Egreja, na esperança de resolverem êsse mistério. Em reuniões de fieis e em conferências religiosas julgaram muitas vezes estarem prestes a atingí-lo, mas depois nada mais lhes foi revelado. Ao meditarem sobre livros religiosos, quantas vezes não teriam estado á beira dêsse mistério, se acaso tivessem lido mais um parágrafo! Talvez que a pagina seguinte, que a frase seguinte lhes descobrisse tudo, e seriam dali por diante levados por uma alta e poderosa corrente! Mas nada disso sucedeu. Foram lidas a frase seguinte e a página seguinte, e nada lhes foi revelado; e muito embora alimentassem sempre a esperança de verem realizado êsse seu anceio, encontrou-os o capítulo final na mesma expectativa. Porque é que nada sucedeu? Porque nada havia para suceder, nada que fosse do género daquilo que êles estavam esperando. Quando é que havemos de saber, que o nosso desejo de santidade é simplesmente o desejo de sermos semelhantes a Cristo? Quando haverêmos de substituir o aspirar fictício pelo aproximarmo-nos do Amigo Vivo? A santidade está no caráter e não na mais ou menos caprichosa disposição do espírito; e a divindade, no nosso próprio calmo temperamento humano, e não em arroubos místicos da alma!

E contudo ha pessoas que por uma razão absolutamente opósta encontram nisto pouca satisfação. Não se queixam de simplificarmos a religião demasiadamente, pondo-a ao nivel da amizade, mas queixam-se ainda de ela ser excesivamente mística. «Permanecer» em Cristo para «fazer de Cristo o nosso mais constante companheiro», é para êles o mais puro misticismo; precisam de alguma coisa absolutamente tangível e absolutamente directa. Não são as almas poéticas que procuram um sinal, um misticismo exagerado, mas as naturezas prosaicas, cuja necessidade de compreensão tem de ser satisfeita por minuciosas e matemáticas definições. Talvez porêm que não seja possivel reduzir êste problema a elementos muito mais positivos. A beleza da amizade está no seu infinito, e nunca se poderá libertar a vida inteiramente de misticismo: o nosso lar, o amor, a religião tudo está dêle impregnado. Porque é que nas relações do homem para com Jesus Cristo havemos de tropeçar no que é natural nas relações de homem para homem?

Se houver alguem que não possa conceber ou realizar o laço místico que nos prende a Cristo, o melhor que terêmos a fazer, será ajudà-lo por meio de analogias ainda mais evidentes tiradas da vida ordinária, a obter essa concepção. Como conhecemos nós Shakspeare ou Dante? Comunicando com as suas palavras e com os seus pensamentos. Ha muitas pessoas que conhecem Dante melhor do que conhecem os seus próprios pais; tem nêles maior influência, por o sentirem mais próximo como presença espiritual, e por como fôrça espiritual o realizarem melhor. Haverá alguma razão porque alguem, maior do que Shakspeare e do que Dante, que passou por êste mundo, que nos deixou grandes doutrinas e que por toda a parte tem hoje grandes obras, não haja de instruir, de inspirar e de formar os caráteres dos homens? E não limito a isto a Sua influência; é isto, e ainda mais. Jesus Cristo, longe de repudiar ou mesmo de entibiar estas relações de Amizade, foi O Próprio que no-las propoz. «Permanecei em Mim» quasi que foram as Suas derradeiras palavras ao mundo. E querendo dalgum modo aplanar a dificuldade dos que sentiam quanto isso era intangível, acrescentou a essas Suas palavras uma conclusão que as elucidasse: «se permanecerdes em Mim, as Minhas palavras permanecerão em vós

Começai pelas Suas palavras. As palavras não podem por muito tempo conservar-se impessoais. O próprio Jesus Cristo foi uma palavra, «um Verbo feito Carne.» Tornai as suas palavras Carne, fazei-as, vivei-as, e vivereis em Cristo. «Aquelle que guardar os Meus mandamentos é que Me ama.» Obedecei-Lhe e haveis de O amar. Permanecei junto de Ele e haveis de Lhe obedecer. Cultivai a Sua amizade. Vivei segundo Cristo, no Seu Espírito, assim como na sua Presença, e será dificil pensar que mais havereis de fazer! Tomai isto pelo menos como iniciamento e introdução; e se não puderdes sentir a influência da Sua vida sobre a vossa, procurai-a tambem indirectamente. «Toda a terra está cheia do caráter do Senhor.» Cristo é a Luz do mundo e grande parte dessa Luz é reflectida das coisas do mundo, até das nuvens. A luz do sol fica depositada em cada folha e da folha transmite-se ao carvão, que, quando os dias são frígidos, e o sol se não enxerga, nos vem reconfortar. Cristo brilha atravez dos homens, atravez dos livros, atravez da historia, atravez da natureza, da música e da arte! Procurai-o aí. Todos os dias deveriamos ver um belo quadro, ouvir bela música, ou ler um belo poema. O verdadeiro perigo do misticismo é não o alargarmos bastante.

Não imagineis que nada sucede por vos não verdes progredir, ou por não ouvirdes o ruído do maquinismo a trabalhar. Todas as grandes coisas se desenvolvem silenciosamente! Poderêmos ver crescer um caracol, mas nunca uma criança. Darwin diz que a Evolução procede por «numerosas, succesivas e ligeiras modificações.» S. Paulo sabia isso e pô-lo na sua fórmula; o que empregou foram palavras mais belas. Disse, para consolação de todas as almas que lentamente se aperfeiçoam, que elas se transformavam «de claridade em claridade» isto é, de caráter em caráter. «O homem interno,» diz êle noutra parte, «é renovado de dia para dia.» Todo o trabalho perfeito é vagaroso; todo o verdadeiro desenvolvimento se efectua por meio de pequenissimas e insensiveis metamorfoses. Quanto mais elevada fôr a estructura, tanto mais demorado será o progresso! Quando o biologista percorre com o olhar a longa Escala dos Sêres vê as fórmas rudimentares dos animaes desenvolverem-se numa hora; os que se seguem a êstes alcançam pleno desenvolvimento num dia; os que lhes ficam acima levam semanas e mêses a aperfeiçoarem-se; mas os poucos que se elevam acima de todos êstes, exigem o labor de longos anos. Se uma criança e um símio nascerem no mesmo dia, o segundo estará em plena posse das suas faculdades e fazendo o trabalho activo da vida antes de a criança ter deixado o berço. A vida é o berço da eternidade! Assim como está o homem para com o animal no lento progredir da sua evolução, assim está o homem ideal para com o homem espiritualmente inculto. Teem de ser feitos com segurança os alicerces que hão de sustentar o pêso da vida eterna. O caráter tem de ser para todo o sempre; como nos havemos de admirar se êle se não pudér desenvolver num dia?

Esperar que uma alma cresça e se desenvolva, é um acto quasi divino de fé. Quão perdoável será a impaciência da própria imperfeição, a impaciência do caráter, que na presença de Cristo, se vê repelente, se vê desprezivel, a admirar, a desejar, a cubiçar ardentemente ser assim! Contudo devemos confiar no processo sem receios e sem dúvidas: «o Espírito do Senhor» fará aquilo que lhe estiver incumbido. O expediente que em busca do progresso repentino ou visível mais nos seduz, é tentarmos algum meio menos espiritual, ou impedirmos o resultado, pondo-nos á espera dos efeitos, em vez de conservarmos o olhar fito na Causa. O fotógrafo imprime da negativa só durante o tempo em que ela está exposta ao sol. Mas quando êle se põe a ver como o trabalho se faz, impede simplesmente o trabalho de se fazer. Seja qual fôr a prudente vigilancia de que a alma necessite, nunca ela poderá estar exposta demais, e estando exposta, não haverá nada no mundo que possa melhorar ou abreviar o resultado que ela tem de obter. A criação dum coração novo, a renovação dum espírito íntegro, é uma obra omnipotente de Deus; deixai-a ao Criador. «Aquelle que começou em vós uma boa obra aperfeiçoá-la-ha até esse dia.»

Mas não ha ente algum, que sentindo o valor e a sublimidade daquilo que para êle é da maior magnitude, fique inerte e descure o seu próprio progresso. Tornar-mo-nos como Cristo é a única coisa no mundo digna dos nossos desvélos; a única coisa diante da qual toda a ambição humana é loucura, e vão, todo o esfôrço menos digno! Só aquêles que fazem desta aspiração o suprêmo desejo e paixão das suas vidas, é que podem começar a esperar alcançà-la. Se por isso tem até agora parecido tudo depender da passividade, permiti-me que assevere com mais ardente convicção que tudo depende da actividade. A religião da adoração sem esfôrço pode ser religião para anjos, mas não para homens. Não é a contemplar mas a agir, que ha a verdadeira esperança; não é em extases, mas na realidade, que existe a verdadeira vida; não é no reino dos ideais, mas entre as coisas tangíveis, que está a santificação do homem! A resolução, o esfôrço, a luta, a mortificação e a agonia—tudo coisas já póstas de parte, como futeis em si, teem que voltar ao seu campo de acção e que arcar com responsabilidade dez vezes maior. De que estão elas encarregadas? Nem mais nem menos do que de fazer mover a grande inércia da alma, que elas teem de colocar e manter onde as fôrças espirituais hão de vir influencià-la! Teem que reunir as fôrças da vontade; que conservar brilhante a superficie do espelho, e sustentá-lo sempre firme; e teem que descobrir a face que ha de olhar para o Senhor, repuxando-lhe para baixo o véu, quando se aproximar o que fôr profano. Talvez que já fosseis com um astrónomo vê-lo fotografar o espectro duma estrêla? Ao penetrardes na obscura quadra do Observatório víste-lo começar por acender uma vela. Para vêr a estrêla? Não; para ver o instrumento que vai dispôr, para por êle ver a estrêla. Era a estrêla que ia tirar a fotografia, mas era tambem o astrónomo, que por muito tempo levou a trabalhar na escuridão, aparafusando tubos, lustrando lentes, e dispondo reflectores, e que só depois de grande trabalho conseguiu que o instrumento perfeitamente focado começasse a funcionar. Então apagou a luz, e deixou a estrêla a fazer na chapa o seu trabalho, sósinha. A tarefa diaria do Cristão é fazer com que tambem o seu instrumento funcione; conseguido isso, pode apagar a sua vela. Todas as evidências do Cristianismo que o levaram até ali, todo o auxílio da Fé, todos os actos da Adoração, todas as fôrças poderosas da Egreja, toda a Oração e Meditação, toda a cooperação da Vontade, tudo processos de menor valor, actividades da fôrça da vela, podem nessa hora suprêma ser póstas de parte; mas lembrai-vos de que é só por uma hora! Bem avisado andará aquêle, que mais depressa acender a sua vela, ou aquêle, que nem mesmo a deixar apagar. Amanhã, daqui a um instante, pode êle, pobre alma obscurecida, maculada, precisar dela outra vez para melhor focar a Imagem, para tirar qualquer argueiro que haja na lente, para lustrar o espelho que o hálito do mundo possa ter embaciado!

Não é por causa da estrêla que carecemos de fazer qualquer modificação, pois ela é sempre um grande ponto fixo nêste universo incerto, mas o mundo move-se: cada dia, cada hora exige outro movimento, outra adaptação para a alma. O telescópio no Observatório vai pelo cronómetro seguindo a estrêla; o cronómetro da nossa alma é a Vontade. Por isso, emquanto a alma em passividade reflecte a Imagem de Cristo, a Vontade em intensa actividade mantêm o espelho firme para que qualquer movimento do mundo o não arraste para alêm da linha da visão. «Seguir Cristo» é manter a alma tão firme que já se dê o desconto ao movimento da terra; e esta propositada contra acção dos movimentos dum mundo, êste conservar o espelho bem em frente daquilo que êle reflecte, êste segurar todas as faculdades atravez de tempestades, terremotos, fogo e espada, é a estupenda colaboração da Vontade! É tudo obra de Cristo. É tudo obra do homem. Em prática são ambas; e em teoria tambem. Mas o homem sensato dirá na prática: «de mim é que depende