Ronquerolle e os seus amigos entregaram-se ás suas recordações. E cheios de melancholia reconheciam quanto é verdadeira a phrase do poeta:

«Ha lagrimas nos objectos que nos rodeiam.»

Ali encontravam a sua inquieta e desgraçada juventude, os dias da adversidade; quando eram desconhecidos, sem fortuna, sem auxilio, sem fama, tendo apenas por unica arma para as luctas da vida o seu indomavel orgulho. Que de noites de invernia elles tinham passado, ali, encostados áquella meza, sonhando com o futuro, escrevendo artigos, compondo versos, imaginando romances, escutando a voz de Ronquerolle, que muitas vezes a todos reanimava e que d'outras se desesperava sentindo-se tambem vencido pela adversidade. Como parecia que esse tempo já ia longe!

—Como estamos tristes e sombrios! disse Maupertuis. Sacudâmos os nervos, vamos.

«Bebamos um ponche em honra das bellas raparigas que nos saltavam ao pescoço e nos beijavam apaixonadamente nos nossos dias de miseria!

«Merecem bem que as recordêmos, essas{158} loucas, mas lindas e alegres companheiras dos tempos que não voltam.»

Ronquerolle estava mais triste que os seus amigos.

Calava-se e absorvia-se n'um secreto pensamento.

Branche comprehendeu o motivo da sua profunda tristeza. Fez um signal rapido aos seus amigos e a conversação não proseguiu no caminho para onde a desviára Maupertuis.

Depois d'alguns minutos de silencio, Ronquerolle ergueu-se e disse para os seus amigos: