A noite cahia lentamente. Lá em baixo, um ultimo raio de sol dourava melancholicamente o cume do monte. Era uma d'estas tardes de junho que enervam a alma e os sentidos. O marquez olhava a cidade, os logarejos, as aldeias perdidas no horizonte longinquo e ondas d'uma vaidade insaciavel lhe subiam ao coração ao pensar que o seu nome dominava na região, como as torres do seu castello dominavam as choupanas da visinhança. Um sorriso de satisfação lhe animou o rosto e teve palavras d'espirito para se rir dos seus inimigos. Quando estava completamente absorvido no pensamento da sua estrella feliz, o seu creado de quarto, Lapierre, tomou a iniciativa de lhe levar os jornaes que acabavam de chegar de Paris. Rasgou, com um gesto brusco, a cinta que envolvia o «Figaro» e passou rapidamente para a segunda pagina para consultar as noticias dos departamentos e das eleições.{23} Os seus olhos cairam immediatamente sobre estas palavras em normando: Borgonha, «circunscripção de Saint-Martin.»
Leu soffregamente a seguinte noticia:
«Escrevem-nos de Saint-Martin, que dois «candidatos se propõem por aquelle circulo, o sr. marquez de la Tournelle conhecido deputado, representando o partido conservador, e o sr. Maximo Ronquerolle publicista, candidato do «comité» republicano. A lucta, diz-se, será violenta. Temos, porém, todas as razões para acreditar que «o sr. Marquez de «la Tournelle» baterá o seu adversario.»
—Ah! ah! ah! riu o marquez; a graça não está má.
Em seguida, dirigindo-se á galeria, chamou muitos dos seus amigos que estavam no salão e leu-lhes a noticia que acabava de ler no «Figaro».
—Como, diz o conde d'Orgefin, presidente do «comité» realista, esse Ronquerolle ousa apresentar-se aqui! É um homem sem valor, escoria de Paris, um revolucionario, um escrevinhador. Conhecêmol-o creança a esse senhor! Usava uma blusa e tamancos. Creio mesmo que seus paes mendigavam...
—Não, disse o marquez, tornando-se sério, o pae Ronquerolle era pobre, mas ganhou sempre honradamente a sua vida. O bom homem era um dos nossos fieis eleitores. Vinha algumas vezes ao casteilo pedir-me conselhos e fui eu quem em tempos o levou a fazer instruir seu filho. Estou bem{24} recompensado! O creançola cresceu e é elle quem nos vae dar combate, meus senhores!
—Mas não é um adversario sério, replicou o conde d'Orgefin; é uma creancice! Quem é o senhor Maximo Rouquerolle? Não existe. Os republicanos de Saint-Martin deviam pelo menos oppôr-nos um homem de valor e não um fedelho, um ninguem, um cidadão Ronquerolle!
Riram todos muito. Lapierre, o creado de quarto, tinha assistido a esta scena, esperando ordens do seu senhor.
—Está bem, diz-lhe o marquez, manda atrelar o break maior. Eu e estes senhores sairemos hoje para fóra da cidade, para Sennevel... Ah! espera, Lapierre, leva o «Figaro» á senhora marqueza. O criado tomou o jornal e retirou depois de saudar o marquez.