Os «de la Tournelle», durante muito tempo, foram os senhores da região. No tempo da Revolução, e nomeadamente durante o Terror, o seu poder decahiu muitissimo; porém quando Bonaparte se apoderou do throno e se fez imperador, readquiriram o seu antigo prestigio, graças ás habeis generosidades diffundidas na região e mais especialmente na circunscripção de Saint-Martin.

No momento em que se desenrolam os{20} factos que relatamos, o marquez Sergio de la Tournelle considerava mais do que nunca, esta circunscripção de Saint-Martin como um feudo que, sem duvida alguma, lhe pertencia. «Maire» da cidade, conselheiro geral e deputado da direita, não poderia affrontar os seus inimigos?

Além d'isso, era digno de ouvir-se, quando fallava do pequeno grupo de republicanos que se agitava na sua circunscripção. Chamava a esses bravos democratas, assassinos, patifes, dignos de serem enviados para Cayenna, canalha sempre embriagada, frequentando os antros do deboche e insultando os padres.

No entanto, as ultimas eleições municipaes tinham mandado trez d'estes «assassinos» a tomar o seu logar na «mairie», ao lado do sr. marquez, e o senhor «de la Tournelle» tinha d'isso um vivo despeito.

A marqueza de la Tournelle, Carlota Maximiliana de Champeautey, era uma mulher d'um bello aspecto e immensamente seductora. Tinha trinta annos, sendo mais nova quinze annos que seu marido. Era bella e forte. Trazendo sempre a cabeça arrogantemente erguida, o seu peito, extraordinariamente desenvolvido nada tinha d'exagerado, por causa da sua elevada estatura. Os cabellos castanhos claros, os olhos azues, as mãos finas com os dedos alongados, os pequeninos pés, completavam o arsenal das suas graças femininas. Além d'isso, amava os perfumes, a «toilette» e dava leis ás grandes elegantes como as adoraveis mulheres do XVIII seculo. Era amavel{21} para todos, ainda mesmo para os humildes e os pequenos.

Finalmente, não se poderia vêl-a sem logo a amar. A bella Carlota não tinha um inimigo, exceptuando talvez o barão de Quérelles, um conquistador desprezado, que tinha jurado não morrer sem se vingar dos desdens da altiva aristocrata. O barão vinha rarissimas vezes a Saint-Martin, mas estava ao corrente de todos os acontecimentos da pequena cidade.

A marqueza tinha no coração, ou antes na cabeça, uma paixão deveras rara entre as mulheres. Era ambiciosa.

Tinha tentado fazer de seu marido um alto personagem, dar-lhe o prestigio superior da vontade e da energia. Porém o marquez «de la Toumelle» pertencia á raça dos mediocres, terminando a marqueza por ter compaixão d'elle. O marquez era um bello homem, muito elegante no seu porte, muito bom cavalleiro, bom valsista, bom caçador, conversador agradavel ainda que futil, mas incapaz de empregar, por seu proprio esforço, a actividade necessaria, e de seguir a um fim com tenacidade. Era vaidoso, mas ignorava o poder do orgulho. Tinha uma grande confiança em sua mulher e não tomava qualquer resolução sem a consultar. Elle era só quem dispunha dos altos cargos da circunscripção, só elle se offerecia aos suffragios dos eleitores. Quem ousaria disputar-lhe a victoria? Deputado em evidencia, proprietario respeitado, dispondo d'um jornal, tendo ás suas ordens um «comité» das pessoas mais elevadas da cidade, batia o seu concorrente completamente, se acaso{22} um se apresentasse, se bem que sabia, dizia elle, que ninguem havia tão tolo que contra elle aceitasse uma candidatura.

—Ah! os cobardes! os amotinadores! gritava uma tarde na janella do seu castello, fallando dos republicanos, e dirigindo-se ao presidente do seu «comité»: Elles que nada teem, que são pobres como Job, fallam em ser senhores! Pois bem! onde está o seu candidato? Que appareça! Vamos, mostrae-m'o raça de biltres!

Ao pronunciar estas palavras, o marquez estendia os braços no espaço, ameaçando com um gesto o café da «Poule-Blanche», logar da reunião habitual dos republicanos de Saint-Martin.