Pensa na tua bella mocidade: e dize bem{18} alto que te amo e que te hei de amar sempre com toda a força do meu coração!
Estas palavras, pronunciadas com uma sincera convicção, abrandaram um pouco as inquietações de Emilia, mas no seu pensamento ficara uma nuvem de amargura e de pezar.
Ronquerolle, por seu lado, embora a sua audacia, a sua energia e a sua poderosa vontade, estremecia ao pensar na brutal realidade dos factos, realidade de que elle se queria aproximar, que precisava abraçar, que, a todo o custo, precisava vencer.
A amante cançada por fim das commoções soffridas, adormecera. E elle, sentado perto do leito, perto d'uma pequena meza, e á luz, d'uma lampada, tendo a cabeça encostada ás mãos, parecia recolhido n'uma dolorosa meditação. O seu olhar brilhava e não mudava de direcção Relembrava as palavras do grande poeta inglez Shelley;
«O mundo é feio e mau.» Via-se a caminhar pelas estradas e atalhos, de Saint-Martin, de aldeia em aldeia para fallar da Republica, aos cidadãos, aos trabalhadores, aos homems do campo.
N'alguns momentos, o seu pensamento mudava de objectivo e olhava a amante adormecida. A cabecita loura de Emilia reclinara-se para o lado do amante. Transportes d'amôr enchiam então o coração do joven republicano e pensava, recordando ainda Shelley:
«Não, não! Nem tudo é feio! Nem tudo é mau n'este mundo! Tomo por testemunha esta creança, que dorme aqui perto de mim, este seio que se eleva e abaixa, respirando{19} vida, estes bellos cabellos louros soltos lindamente, e a que os raios da luz d'esta lampada dão reflexos dourados...
[II
O marquez e a marqueza de Tournelle]
A pequena cidade de Saint-Martin, na Borgonha, conta seis mil habitantes. É uma linda e graciosa sub-perfeitura que tem os seus ares de praça forte, com as suas antigas muralhas, a sua guarnição e sobretudo pelo seu velho castello, dominando a cidade e recordando os tempos do feudalismo. Este castello é habitado desde tempos immemoriaes pela familia «de la Tournelle», que tem nos seus brazões a corôa de marquez.