Essa luz, que brilhava na escuridão da noite em uma janella do castello do seu inimigo vinha lançar um clarão na sua memoria obscurecida e, occorrendo não sei que presentimento do destino, o pobre rapaz imaginou que a pessoa que trabalhava lá em cima, na habitação luxuosa do marquez{37} «de la Tournelle», era a linda e elegante mulher que em tempo lhe perturbara a cabeça e o coração.
—Mas não! murmurou Ronquerolle. Não é possivel! Estas cousas só acontecem nos romances e não na vida real!... No emtanto, essa loira divina d'olhos azues chamava-se, era com toda a certeza a marqueza «de la Tournelle». Revejo-a ainda na occasião em que dançava commigo e encostava o seu peito desolado contra o meu... Pouco a pouco as recordações reviviam. Tornara-se nervoso, o seu coração batera fortemente, querendo esclarecer a duvida em que se debatia. Os «de la Tournelle» eram numerosos. Havia-os no Norte, no Meio-dia, na Borgonha. Nada poderia dizer a Ronquerolle que a mulher, que elle conhecera outr'ora, estava alli, no seu castello batido pela lua.
—Vamos! disse fechando a janella, são horas de dormir. Sei bem a quem hei-de recorrer, interrogarei Lapierre.
Quando adormeceu, a aurora começava a apparecer. O seu ultimo pensamento fôra de que seria bem extraordinario que ao marquez «de la Tournelle» alem da cadeira de deputado lhe conquistasse tambem a mulher.
Ronquerolle não se enganara nos seus presentimentos. A pessoa que velava no castello senhorial era a marqueza, a loira, a seductora, a divina Carlota. Não lia, porém, nem romances de Balzac nem poesias de Musset. O seu espirito estava demasiado agitado para se entreter com os doces e consoladores devaneios litterarios. Trabalhava{38} pelo triumpho da sua causa, escrevendo sobre um bello papel assetinado um artigo para o seu jornal, um artigo em que envolvia os candidatos republicanos com uma maneira encantadora e em que fustigava o cidadão Ronquerolle com toda a malicia e crueldade d'uma mulher. Tambem ella espetava as esporas até fazerem sangue.
O marquez «de la Tournelle», dissemol-o já, tinha um jornal o «Echo de la Bourgogne», velha folha monarchica, assignada por todos os curas da circunscripção de Saint-Martin. De vez em quando, a amavel marqueza não se dedignava em publicar nas columnas do jornal, na primeira pagina, um elegante artigo em que estimulava habilmente a indolencia do partido realista e em que zombava dos democratas.
Esses artigos, que agradavam, eram lidos por todos, mas ninguem sabia, quem fosse o seu auctor.
Quando o marquez entrou na sua habitação, após o passeio a Semeval, contou toda a scena de que fôra testemunha em frente ao «Poule Blanche».
—Meus senhores, disse a marqueza, esses republicanos dão-vos o exemplo; trabalham, estão no seu direito e teem razão. Vivemos n'um tempo em que é necessario arriscar-se a gente. O prestigio da raça, do nascimento não é mais do que uma lembrança longinqua. É necessario trabalhar-se, é necessario descer á arena para se vencer. O poder, o futuro não pertence senão aos homens d'acção.
O marquez «de la Tournelle» achou este{39} discurso de sua mulher um pouco atrevido, mas temeu fazer qualquer objecção. Convinha voluntariamente em se mostrar ao povo no seu trem, fallar-lhe por intermedio dos seus criados ou dos seus secretarios; mas fallar-lhe n'uma reunião publica, expôr-se a ser interrompido, a ter diante de si por adversario de tribuna um atrevido como Ronquerolle, com a sua voz de trovão, e que saido do povo, lhe conhecia as emoções e as coleras, ser um homem d'acção, n'uma palavra, no sentido em que o entendia a marqueza; todo este papel, toda esta tarefa não se apresentava ao espirito do castellão de Saint-Martin sob uma perspectiva muito attrahente.