Depois que fôra eleito deputado, não fallara uma só vez na camara. Perfeitamente correcto nas suas maneiras, sempre barbeado de fresco, limitara-se a soltar alguns gritos de quando qualquer orador da esquerda tomava a palavra. Quando, porém, nas galerias reservadas ao publico appareciam algumas elegantes, que vinham mostrar a sua vaidade e os seus sorrisos como nos camarotes d'um theatro, não se esquecia nunca de as requestar, lançando amiudadamente o seu monoculo.
O marquez era, n'uma palavra, uma das mais brilhantes inutilidades do Parlamento.
Sua mulher que era ambiciosa, enfurecia-se por não possuir mais que a apparencia do dominio e do poder. Teria preferido disfarçar sob uma fraqueza fingida as alegrias intimas do mando.
—Ah! que se eu fosse homem! disse a{40} marqueza, ao concluir o seu artigo para o «Echo de la Bourgogne» e lançando com despeito a penna; ensinaria a viver este senhor Ronquerolle.
Ao mesmo tempo que Ronquerolle se mettia no seu leito d'hotel, imaginando a maneira, de dar ao sr. «de la Tournelle» um golpe traiçoeiro, a marqueza deixava-se vencer pelo somno no seu grande leito Luiz XV, coberto com um baldaquino que amôres gorduchos seguravam.
Fecharam-se-lhe as palpebras e meia adormecida murmurava uns versos de Ronquerolle.
Uma grande actividade começou a desenvolver-se nos dous campos, a partir d'esse famoso dia da chegada de Ronquerolle. A guerra declarara-se entre o castello soberbo dos «de la Tournelle» e a humilde «Poule Blanche» onde estavam hospedados Ronquerolle e os seus companheiros. Faziam-se apostas. Agitaram-se todas as paixões em Saint-Martin.
As proprias mulheres, se mettiam nas discussões. Muitas d'entre ellas se mostraram favoraveis a Ronquerolle, porque era novo, diziam ellas, e um bonito rapaz. Tinham immensa vontade de o ouvir fallar. Porque se não organizava uma conferencia publica no theatro, um domingo, depois do meio-dia? Ellas iriam lá. E depois, não era só isso. Tinham simpathisado com os «tres parisienses». Eram d'este modo que designavam Maupertuis, Branche e Didier. Estes cavalheiros diziam ellas, teem muito espirito; conhecem a alta vida de Paris. Porque se{41} não convidam? É necessario deixal-os abandonados na «Poule Blanche?»
Tal era o objecto das conversações quando, no domingo, 24 de junho, appareceu o primeiro numero do «Reveil» o jornal de Ronquerolle. Principiava por uma apologia vigorosa do regimen republicano, seguindo-se-lhe um pequeno artigo intitulado: «O sr. conde d'Orgefin».