N'esse artigo Ronquerolle pregava o seu inimigo no pelourinho. Lembrando as injurias que o conde proferira, terminava assim: «Por consequencia, a redacção do «Reveil» decreta que o sr. conde d'Orgefin seja considerado como um tolo e convidamol-o a vir receber o attestado do seu novo titulo na quinta feira, 28 de junho á reunião publica que se ha de effectuar em Saint-Martin. Por sua vez, reservamos uma queda honrosa para o nosso elegante adversario, o marquez «de la Tournelle», cujo papel na camara tem sido até hoje egual a zero. Os eleitores julgarão depois de ter escutado os dois concorrentes».

O artigo não levava assignatura alguma. Ao mesmo tempo que rebentava esta bomba, apparecia do seu lado o «Echo de la Bourgogne» e o artigo da marqueza, brilhando na primeira pagina com a assignatura «Phenix». Ronquerolle era ali martyrisado a picadas d'alfinete, discutia-se com habilidade o seu talento d'escriptor, os inicios da sua carreira litteraria, considerando-o apenas como um estudante.

«Queremos poupar este menino, concluia o artigo da marqueza. Seriamos dignos de censura se o fizessemos chorar e tomar a{42} serio os seus brinquedos. D'aqui a vinte annos os eleitores da circunscripção de Saint-Martin poderão talvez saber que existe M. Ronquerolle. Hoje perdoam-lhe os destemperos mas com a condição de que em breve acabarão. Em todo o caso seria bom que lhe impozessem silencio».

Ronquerolle não se impressionou com a tirada. Ainda que alvejado nunca se alterava. Leu muitas vezes o artigo que tinha tentado humilhal-o. Separou o estylo e as ideias como homem de «metier».

—Esta Phenix, dizia elle aos companheiros, não é um principiante mas o medo que lhe provoco é manifesto. A ameaça final denota despeito e fraqueza Ah! bello desconhecido! queres fechar-me a bocca! Eu saberei quem tu és!

No castello houve uma discussão animada a proposito da reunião publica annunciada. A marqueza queria por força que seu marido e o conde d'Orgefin acceitassem o desafio dos republicanos.

O comité conservador decidiu por unanimidade que se deixassem sós os republicanos a fazer e a dizer o que quizessem na reunião publica. Era por outros meios mais discretos e mais seguros, pensavam, que era necessario operar. A marqueza ao ter conhecimento d'esta deliberação encolerizou-se extraordinariamente.

—Meu amigo, dizia ao marido, tremeis deante de M. Ronquerolle. Mas desconheceis por completo o poder da palavra sobretudo no povo! Toda a Saint-Martin irá a essa reunião. Contam comvosco lá e vós não ides. Ainda uma vez lembrai-vos da{43} minha advertencia, dizei adeus á eleição se vós proprio não defenderdes as vossas ideias!

A marqueza sentia que lhe faltava o terreno. Comprehendia que as simpathias iam para o novo candidato. A classe operaria tinha sido conquistada por Ronquerolle que se arvorara seu defensor. O pequeno commercio e a burguezia, indifferentes até então, davam coragem ao candidato republicano. Na sua colera a marqueza agarrava-se a seu marido sem piedade, e perguntava a si mesma porque casara com esse homem, só bom para se pavonear n'um baile ou n'uma «soirée».

—Como este Ronquerolle é ambicioso! Como sabe chegar depressa ao seu fim, abertamente, sem demora, com o bom «humour» da força, com a coragem da mocidade e com a resistencia das grandes convicções! E eu que o ataquei com colera! eu que tentei envergonhal-o!