É um prestigio do talento, o impôr-se áquelles que merecem o nome d'adversarios. M.me «de la Tournelle» censurava-se de ter cedido á phantasia, de ter querido attingir Ronquerolle com a sua penna mordaz!

Alem d'isso, as grandes almas, de qualquer lado que venham, sentem-se sempre attrahidas por uma estima reciproca. Podem ter um fim differente na vida, podem ter, sobre os homens e sobre as cousas, as ideias mais diversas, que se assemelham sempre pela honestidade superior da conducta, pelo respeito do que é verdadeiramente grande e bello e pelo desprezo soberano{44} de tudo que é mesquinho, pequeno falso, venal e baixo.

Advinham-se, conhecem-se, muitas vezes, sem nunca se terem visto, sem nunca terem trocado duas palavras; seguem-se por uma visão intelectual, nas suas acções, admiram-se mutuamente a distancia e desejam-se porque só ellas se podem comprehender. É isto que explica muitas vezes o segredo d'essas melancholias profundas que absorvem o pensamento completamente, d'esses sentimentos, d'essas ligações, d'esses amôres que o mundo julga extraordinarios e anormaes mas que um observador de paixões considera naturaes e fataes.

A pezar seu a marqueza sentia-se attrahida para Ronquerolle porque o republicano fallava e trabalhava com a facilidade d'um genio, porque era novo, porque caminhava para a gloria, porque era verdadeiramente o filho das suas obras, porque nada devia ao dinheiro, á lisonja e á intriga. Tudo entretanto os separava, o nascimento, as ideias, a raça, a fortuna, as relações e a sociedade em que viviam; mas á lei mysteriosa que preside aos sentimentos humanos, agrada vencer os obstaculos e acaba sempre por ligar os que se procuram, os que sentem a necessidade de se amarem.

A marqueza chamou a sua criada de quarto a quem ordenou que a ajudasse a vestir. Eram quasi quatro horas. Metteu-se na sua carruagem, mandando bater para os «Passeios». Estava encantadora na sua «toilette» de verão. Agitada, contrariada na sua ambição, cheia de colera contra seu{45} marido, sentia a necessidade de respirar o ar puro do campo, de descançar os seus lindos olhos azues no espectaculo harmonioso dos bosques, dos valles, dos prados, das collinas e de se sentir levada pelo galope rapido dos seus cavallos.

O retiro conhecido pelo nome de «Passeios» é um dos mais bellos logares de Saint-Martin. Entra-se por um largo caminho ladeado de ulmeiros. O rio, parallelo ao caminho, corre pelo fundo do valle, vendo-se do lado opposto uma cadeia de collinas que nos fecham o horizonte parecendo tocar o ceu azul. Os «Passeios» são formados por tres avenidas magnificas, com castanheiros e tilias centenarias. No fundo da avenida central levanta-se uma estatua em marmore, datada do XVIII seculo e representando Cybele. Alguns metros distante corre uma fonte rustica mugindo d'um rochedo e cercada de plantas aquaticas.

É um passeio verdadeiramente encantador feito para o amôr e para a ambição. Estas avenidas levavam outr'ora a um castello grandioso, abandonado durante a revolução e que, com o tempo, tombara em ruinas. As pedras amontoaram-se, as silvas e as ervas cobriram-as, os parasitas invadiram-as, mas as arvores resistiram á acção do tempo.

A communa de Saint-Martin, que adquirira este velho dominio ha cerca de quinze annos fez restaurar cuidadosamente as trez avenidas. Quanto ás ruinas do castello não ousou tocar-lhe, o que lhe era recommendado pelas suas economias.

Aos domingos, durante o verão os «Passeios»{46} eram muito frequentados. Vinha gente de tres ou quatro leguas em redor. Os rapazes davam alli «rendez-vous» ás suas namoradas e a deusa, immovel e com a sua cara de marmore, passa por ter visto cousas «lindas». Á semana, pelo contrario, era um silencio absoluto. A distancia era grande de mais para ir a pé de Saint-Martin. No mez de setembro eram raros os frequentadores.

A marqueza sentia renascerem-lhe as ideias alegres á vista do rio e das suas margens floridas. O sentimento da natureza penetrava-a e fazia-lhe sentir um encanto mysterioso.