—Meu Deus! como isto é bello! murmurava.

Os seus desejos renovavam-se ao contacto d'esta paysagem. Vendo um bello carvalho desejava vêr debaixo da sua sombra tudo o que amava; viu um barco preso á margem do rio, balouçando ao capricho do vento, e desejou sentar-se alli, tendo em frente um sympathico e elegante remador. N'uma palavra, toda a sua energia se fundia como n'um circulo de fogo em presença d'essas florestas voluptuosas, d'essas aguas perfidas, d'essa verdura que a sombra torna mais attrahente.

M.me «de la Tournelle» mandou parar a sua carruagem no principio da grande avenida. Desceu e caminhou a pé por entre os castanheiros e as tilias. Habituara-se a dar este passeio; ia saudar a deusa Cybele, gosar o frescor da fonte depois do que voltava devagar e entrava na carruagem para regressar a Saint-Martin.{47}

Uma vez alli, começou a andar mais rapidamente, nervosa e irritada contra seu marido.

Appoiava-se ligeiramente á sua sombrinha e um largo perfume d'heliotropo exhalava, a sua «toilette», perfumando a atmosphera. Caminhava arrogantemente, levando alta e direita a sua linda cabeça loira, olhando para diante com uma elegante arrogancia.

Esta mulher encantadora abandonava-se ao divino prazer de se sentir nova e bella n'aquelle sitio campestre, debaixo d'essas arvores centenarias, no meio do silencio da natureza. O coração batia-lhe mais forte do que de costume. A solidão do logar inquietava-a, e a folhagem que a briza fazia murmurar docemente produzia-lhe um tremor d'inexpressavel voluptuosidade.

Quando se dirigia para a fonte dos «Passeios», viu de repente n'um banco um homem mergulhado no mais profundo scismar. Estava só. Tinha os braços cruzados sobre o peito, o chapeu collocado ao lado e absorto n'uma meditação de tal modo que não ouvira o passo ligeiro da marqueza nem dera pela sua presença. Tinha a cabeça um pouco inclinada sobre o hombro e poder-se-hia acreditar que dormitava se não fosse o seu olhar vivo e expressivo.

M.me «de la Tournelle» parou. Não ousava afastar-se nem ir mais longe. Impressionara-se ao encontrar um homem na occasião em que se encontrava só, de modo que esteve a ponto de soltar um grito de surpreza. Ficou, portanto; mas, sem por isso dar, fez um movimento brusco com a sombrinha{48} o que attrahiu as attenções do mancebo que se levantou saudando-a.

Este mancebo era Maximo Ronquerolle. Viera alli, a occultas dos amigos, para meditar sobre as aventuras da sua mocidade, sobre as incertezas do seu futuro, sobre os destinos da sorte que tanto nos fazem subir á superficie e nos põem em evidencia como nos deixam na sombra e nos lançam no nada.

Quando reconheceu M.me «de la Tournelle» sonhava com a poesia da natureza, com as delicias d'um sitio pittoresco, com o attractivo das solidões e pensava que talvez para elle fosse melhor renunciar ás agitações da vida publica, ás febres e ás agonias das ambições e ter uma existencia pacifica em qualquer humilde habitação do seu paiz natal.