Distraido do seu sonho simples e puro, saudou a mulher que se encontrava junto d'elle e que reconheceu immediatamente. Era bem a soberba creatura que a sua memoria recordava: aquelles olhos azues, aquelles cabellos loiros nunca os esquecera!

—A senhora marqueza «de la Tournelle?» perguntou Ronquerolle.

—Sim, senhor! respondeu a marqueza perturbada. Não o conheço! Que me deseja?

Ao dizer isto, M.me «de la Tournelle» recuou um pouco, olhando a carruagem que tinha ficado á entrada da Avenida. Viu-a através a folhagem do arvoredo e Ronquerolle comprehendeu esse olhar. A marqueza temia ser vista pelos seus criados{49} que acreditariam facilmente n'um «rendez-vous,» decidindo-se por isso a retirar-se e a deixar absorto o desconhecido que lhe dirigira a palavra.

—Minha senhora, chamo-me Maximo Ronquerolle e quero crêr que não sou para vós absolutamente um desconhecido. Ah!... que de segredos que tenho a confiar-vos! Que de confidencias que tenho que fazer-vos!

—Vós?! interrompeu a marqueza, o senhor, o nosso adversario, o nosso inimigo!

—O destino, dizia Ronquerolle, é verdadeiramente o deus do mundo, como já vos escrevi, citando Schiller. É necessario aproveitar. Não fiqueis immovel debaixo d'estas arvores, minha senhora, os vossos criados perceberão que não estaes só. Escondei-vos atraz d'esta tilia immensa, onde ninguem nos poderá ver e vos direi todo o meu pensamento.

A marqueza hesitou a principio. O medo fez com que ella se decidisse e tranquillamente caminhou para traz da arvore cujo tronco a escondia de todas as vistas.

—Devia evitar-vos, dizia ella, detestar-vos, odiar-vos e arrisco-me a perder-me por vós.

Ronquerolle tinha os olhos fixos nos seus. Fascinado, louco, contemplava-a e sentia-se vencido pela belleza magestosa d'aquella mulher. Não via n'ella a marqueza inimiga da sua causa, a aristocrata que desejava a volta da realesa e que sonhava uma côrte brilhante em que triumphasse; não, ella não era para elle, n'essa hora, mais do que a incarnação da elegancia,{50} da juventude, da vida, do amôr, da paixão incandescente, que queima, que devóra.