Por um phenomeno análogo, a castellã de Saint-Martin esquecia que o homem que alli estava deante d'ella representava o povo trabalhador, os infelizes que se revoltam, que fazem as revoluções e que prendem os reis e os imperadores. Não pensava que esse homem incarnava o odio fatal do pobre contra os rico, do humilde contra o poderoso, do opprimido contra o oppressor. O que n'elle via era o talento promettedor, o enthusiasmo da sua linda edade, a coragem do homem que luta, a poesia do ideal e da acção, o encanto emfim d'um espirito superior e d'um coração preso ao destino.
Alem d'isso, nem um nem outro tinham tempo de reflectir, as convenções imbecis da sociedade não podiam ser attendidas n'aquelle encontro e a natureza boa e fecunda recuperava os seus direitos. A presença, por si mesma, tem a sua eloquencia e dois olhares que se encontram diminuem singularmente as distancias.
—Perder-vos por mim! disse Ronquerolle, mas não sabeis que me perderei para vos agradar! Amo-vos com toda a minha coragem, com toda a minha energia e não é d'hoje este amôr, não é d'hontem. Ha quatro annos que viveis na minha saudade. Recordae o baile em que dançámos juntos, onde vos tive junto do meu peito!... Recordai-vos...
—Amaes-me, vós! o orador das multidões, o republicano fogoso, o apologista do Terror!{51}
M.me «de la Tournelle» estava de pé e encostada á larga tilia, paternal e tranquilla. A velha arvore servia-lhe de abrigo mas não a occultava.
Ronquerolle, na sua frente, conservava-se a uma distancia respeitosa. O seu busto, alto e esbelto, dominava o da marquesa.
—Se vos amo! dizia elle, aproximando-se, e com uma voz em que havia lagrimas. Se vos amo!
Fez-se silencio. A commoção impedia Ronquerolle de fallar! Sentia desejos de tomar a marqueza e de a cobrir de beijos. Temia assustal-a e pensava: como convencêl-a? Sê simples e verdadeiro! respondia-lhe a sua nobre intelligencia; era a arma mais digna para conquistar uma mulher como aquella.
—Sim amo-vos, porque a vossa belleza me arrasta; desejaria resistir a este encanto, mas não posso. Oh! minha senhora, não misture com a minha paixão as irritantes discussões politicas. Não pairará acima d'essas questões, para almas como as nossas, a ideal visão do amôr? Não se encontram os grandes corações n'esta esphera superior onde veem acabar as disputas dos homens? Vêde! tenho um orgulho que por vezes me arrasta e que resistencia alguma fará dobrar... appareceis-me, e estou prompto a cair de joelhos deante de vós. Está domado o meu orgulho? Certamente não, mas, por cima d'elle, encontrar-nos-emos e parece-me que lá nos amaremos.
... Não pensaes assim? Sei-o bem, não me enganei comvosco: o mundo ideal a que aspira a vossa alma não tem nada de{52} commum com as infamias, com as pequenas coisas, com os miseraveis calculos das castas e dos partidos. Vá, respondei, senhora! Não disse eu a verdade?