—Meu Deus! meu Deus! dizia a marqueza, quando o ousado barão teimava em conseguir o seu «desideratum», que hei de fazer d'esta creança? É tão baixo que se torna ridiculo.{55}

No emtanto, Domingos de Quérelles não era um imbecil. Era para elle um contra tempo a sua estatura minguada e muitas vezes repetia que os homens não se mediam aos palmos.

Infelizmente para elle, M.elle de Champeautey não se via obrigada a debruçar-se para tomar o braço de seu marido e o elegante «Sergio de la Tournelle» não tivera muito trabalho para eclipsar o seu rival. A repugnancia d'artista que a futura marqueza sentira pela antistetica personagem que era «Quérelles» contribuira immenso para o triumpho do marquez.

—Ah! dissera Domingos de Quérelles, M.elle de Champeautey quer desposar um pateta? Pois bem, que o faça, que d'isso se arrependerá.

O barão viajava por Italia quando, pelos jornaes, viu que no seu departamento os republicanos oppunham um candidato aos monarchicos. Immediatamente arranjou as suas malas e veio a toda a pressa para Saint-Martin onde possuia uma propriedade. As ideias politicas de «des Quérelles» tinham sido até então conservadoras se bem que com uma certa tendencia liberal. A côr de conservador era uma tradicção na sua casa de fidalgo, mas o seu espirito, moderno e liberal, não desdenhava em admittir as modernas theorias democraticas.

Não era um inimigo do progresso e quando via que alguma asneira se fazia, reprovava-a absolutamente quer ella viesse dos conservadores quer dos republicanos. Era extremamente estimado na Borgonha. Não se desprezava em comer á mesa dos{56} operarios quando para isso se offerecesse occasião e secretamente, desejava pertencer ao conselho geral.

Se não perdoava á marqueza o tel-o despresado, mais o acabrunhara com os seus sarcasmos o sr. «de la Tournelle», «maire» conselheiro geral e deputado.

—É um asno, dizia «des Quérelles», fallando do marquez; sim, é um estupido esse espigado marquez «de la Tournelle». Aposto vinte luizes em como não sabe distinguir a sua mão esquerda da direita e que a respeito de ortographia é um ignorante.

A candidatura de Ronquerolle era um balsamo sobre as feridas d'amôr proprio e sobre as irritações do «petit baron». Encontrava assim maneira de se vingar d'aquelles que tinha como seus inimigos, vingança que tinha acalentado durante tantos annos.

—Emfim, dizia, chegou a hora da minha vingança. Por mais «pequeno» que eu seja podem contar commigo aqui. Disponho de muitos milhares de votos que vão ser n'este momento o meu instrumento de vingança. Dal-os-hei ao novo deputado Ronquerolle. É um republicano exaltado... que me importa isso. É necessario a todo o transe que esse papalvo, esse marquez «de la Tournelle» perca a eleição... Ah! o patife, não me exterminou ainda! Ah! sr.ª marqueza, despresastes as minhas homenagens! Sereis vós quem d'esta vez virá implorar a paz e então entabolaremos as condicções.