Como todos os apaixonados, o barão «des Quérelles» não renunciara, ainda, á{57} sua ultima esperança em commover o coração da mulher que elle tão extraordinariamente amara.

Era seu inimigo, por amôr. Queria tirar a sua desforra. Alimentava ainda a esperança de que, apezar de se não ter podido desforrar, talvez podesse um dia fazer d'ella sua amante.

—Quem sabe, dizia, o que será aquella mulher, que sentimentos lhe dominam a alma, sobretudo depois da desillusão que deve ter sentido após o seu casamento com esse estupido marquez.

Era digno de ver-se o homemsinho, passados dois dias, pavoneando-se sobre os elevados saltos das suas botas, fumando o seu cigarro.

—Vamos! Vamos! pensava, tudo caminha á mercê dos nossos desejos. Declaro guerra aos «de la Tournelle», colloco todas as minhas baterias em campo, excitando os eleitores contra elles... A marqueza pedir-me-ha treguas na lucta, enviar-lhe-hei um parlamentar e tudo conseguirei; será finalmente o resumo de todas as minhas esperanças, de todos os meus desejos. Quanto aos candidatos, elles que se arranjem, que resolvam o caso como entenderem. Se porém ainda assim a marqueza continuar a mostrar-se esquiva, será Ronquerolle o novo deputado por Saint-Martin.

Domingos de Quérelles adquiriu então uma rara actividade junto dos eleitores, em toda a parte. Este liliputiano mexia-se como um diabo n'uma pia d'agua benta. Entrava nas choupanas, conversava com os operarios, pagava-lhes de beber, comia com{58} elles, acabando sempre as suas conversas pela politica.

Em breve em todas as communas se espalhou a noticia de que o barão advogava a candidatura de Ronquerolle. Foi uma surpreza para o castello. O conde d'Orgefin, presidente do «comité» conservador, era d'opinião que se devia tomar uma medida energica, e em plena reunião de todos os marechaes do partido reacionario ficou planeada. Devia convocar-se, no castello do marquez «de la Tournelle», a reunião dos oitenta a cem proprietarios influentes da circunscripção; coroaria a reunião um grande banquete.

—Que reles canalha que é este barão «des Quérelles!» dizia uma manhã o conde d'Orgefin ao marquez. Hein! Comprehendeis este homem? Excitar a população contra nós! Defender um Ronquerolle! Romper abertamente com as tradições da sua familia! Ah! marquez, é preciso que não nos enganemos, se o barão fôr contra nós até ao fim da lucta, perderêmos votos, mesmo muitissimos votos.

—É uma vingança de biltre, respondeu o marquez. O barão «des Quérelles» é um poltrão. Morde cobardemente, receando encontrar-se frente a frente commigo, não dizendo a causa da lucta porque tem d'isso vergonha. Sabeis por que elle nos odeia a este ponto?

—Sim, sei, meu caro amigo, respondeu o conde. O tôlo, queria desposar a marqueza, e não vos pode perdoar o terdes vencido na conquista do coração da marqueza, calcando assim os seus caprichos.{59} Tratemos, antes de tudo, de o atrair; depois de feita a eleição, lançamol-o á margem, desprezamol-o como a uma casca de laranja.