Ás nove horas da noite, Branche, Didier e Maupertuis fiséram a sua entrada no salão de M.me Desbroutin, uma senhora loira, pequena e nutrida, muito amavel, muito{61} simples e muito mais nova que seu marido.
—Como, meus senhores, vindes sós? O sr. Ronquerolle não vem?
—Perdão, sr. Desbroutin, respondeu Maupertuis, o nosso amigo está preparando n'este momento um discurso politico mas estará aqui antes d'uma hora tendo-me encarregado de vos apresentar as suas desculpas.
Tinham já chegado muitas pessoas, toda a burguesia descontente de Saint-Martin; todos os que nada tinham a esperar do castello e que não podiam por mais tempo supportar que os cavallos e os trens do marquez os continuassem a enlamear, tinham sido convidados por mestre Desbroutin.
As mulheres vinham acompanhadas de seus maridos. Desbroutin andava por todos os lados a explicar que não tardaria a chegar o sr. Ronquerolle, a quem uma pequena occupação detinha em casa. Esperava-se só por elle para ser servido o chá. Quasi todos os homens se tinham retirado para o gabinete de trabalho do notario, que se seguia ao salão e onde fumando, se entretinham a fallar das eleições.
Maupertuis fallava no meio d'elles, Branche e Didier tinham ficado perto das mulheres a quem contavam como no inverno se passava a vida em Paris e como ella era immensamente mais divertida do que na provincia. Alem d'isso, Branche testemunhava uma sympathia particular a M.me Desbroutin, emquanto que Didier fazia evidentemente a côrte a M.me Beaumenard, a mulher do banqueiro Beaumenard. Esta{62} tinha um espirito romanesco. A sua maior felicidade consistia em lêr folhetins e ser heroina ideal das mais ternas aventuras.
—A vida sem paixão, dizia-lhe eloquentemente Didier, é semelhante a um deserto arido. É um pouco a minha, e nem vós calculaes, senhora, o quanto tenho soffrido pelo coração. Ah! Se não fôra a politica por onde faço carreira e que me faz esquecer as amarguras da vida, seria o homem mais infeliz da terra.
A graciosa M.me Beaumenard estava encantada com esta linguagem. Encontrava vivas, nas palavras do fino e amoroso Didier, as tiradas apaixonadas que a faziam quasi chorar nos seus livros. Branche, pelo seu lado, tinha levado a linda mulher do notario até ao precipicio encantador mas perigoso das confidencias amorosas.
Eram onze horas quando chegou o barão «des Quérelles». Desbroutin tinha-o convidado verbalmente e sem ceremonia. O barão promettera vir e viera com o fim d'excitar os espiritos contra o marquez «de la Tournelle». Pretendia ao mesmo tempo conhecer de perto e assegurar-se por si proprio se o joven deputado republicano era realmente o homem intelligente de que lhe tinham fallado. A presença do barão interrompeu por momentos a interessante conversação de Branche com M.me Desbroutin. Quanto a Didier, aproveitou o vae-vem dos convidados e a curiosidade que se fizera em volta do barão, para apertar docemente a mão de M.me Beaumenard que lh'a retirou, é verdade, mas sem muito esforço.
Ronquerolle entrou finalmente no salão.{63} Apresentou as desculpas da sua demora, sendo facilmente desculpado. Desbroutin apresentou-o ao barão, ficando os dois a conversar. Desbroutin andava radiante. A pequena «soirée» fôra ainda além dos seus desejos e no dia seguinte todo o mundo o invejaria.