O coração batia-lhe fortemente dentro do peito. Occultou-se por detraz d'uma sebe e quando a forma escura e indecisa estava junto d'elle, murmurou docemente:

—Sois vós, minha querida?

—Sim, sou eu, respondeu uma voz debil. Onde estaes?

Era com effeito a marqueza de la Tournelle. Trazia o rosto coberto com um espesso veu e tremia de esperança e d'amôr. Sentiu-se tranquilisada com a presença d'aquelle a quem ia tornar seu amante, abandonando-se-lhe. Ronquerolle tirou-lhe o duplo veu que a envolvia e deu-lhe o braço, ajudando-a a caminhar, arrastando-a quasi.

—Como podesteis vós vir aqui a estas horas? perguntou Ronquerolle.

—Sabel-o-heis mais tarde, respondeu a marqueza. Commeto por vós imprudencias que podem tornar-me alvo dos motejos publicos; se não me amaes verdadeiramente, como creio, sereis um grande culpado!

Ronquerolle jurou que seria eterno o seu amôr e que só a morte o poderia destruir. «M.me de la Tournelle» descançou um pouco mais ao ver-se sentada ao lado de Ronquerolle, sob as tilias centenarias, escutando com attenção as suas palavras, os juramentos que lhe fazia.

Jamais ouvira tão apaixonadas palavras. Nunca acreditara que fóra dos romances, existissem d'aquelles enthusiasmos. Nunca{71} Ronquerolle, pelo seu lado, tivera para seduzir uma mulher, usado de termos tão ardentes, d'exclamações tão enthusiasticas, como nunca occasião tão favoravel se lhe offerecera.

Durou muito tempo a entrevista dos dois amantes. Tinham ao seu dispor as horas tranquillas da noite. As nuvens tinham desaparecido, o vento acalmara-se e as estrellas silenciosas percorriam o seu eterno curso.

Ronquerolle tinha, entre as suas mãos, as mãos delicadas da marqueza e contava-lhe as aventuras da sua mocidade ardente. Ella escutava-o, admirava-o intimamente e estabelecia pequenas perguntas de amôr. Tremia ao pensar na aventura em que se lançára e o seu seio arfava sob a emoção commovente do remorso e da felicidade.