—Que felicidade a minha! segredava-lhe Ronquerolle. Sou todo vosso, sem restricções, sem pensamentos reservados e é a primeira vez que o faço. A fatalidade creou-nos um para o outro e torna-se impossivel que não nos amemos. Ah! quem descobrirá os mysterios da ternura humana? Quem conhecerá a lei que preside ás preferencias do coração humano? Quem nos explicará como é que nos achamos aqui reunidos na calma d'esta noite linda, devorados pelo fogo da paixão, decididos a tudo vencer antes do que deixarmos de nos amar, de que nos separarmos?... Oh! como sois bella! E como vos amo!

E febrilmente o mancebo enlaçava a marqueza. Contou-lhe tudo quanto sacrificava para que alli estivesse ao lado d'ella, apresentando-se{72} decidido a tudo immolar ao seu amôr para lhe provar que era digno da sua ternura e que a comprehendia em tudo e por tudo.

—Tinha como que um presentimento mysterioso de que influenciarieis na minha vida e que o destino nos uniria mais cedo ou mais tarde; disse a marqueza. Lembrais-vos d'aquelles versos, d'aquella linda poesia que um dia me mandastes? Ha quatro annos já. Pois bem, conservo essas estrophes que talvez tenhais esquecido. Porque guardei eu tão fielmente essa vossa lembrança? Porque foi que tudo o que dissestes e tudo o que fizestes se me gravou na memoria? Porque não deixei de vos admirar nas vossas luctas e de vos amar?...

«M.me de la Tournelle» e Maximo de Ronquerolle viajavam pelas altas espheras da paixão. A voluptuosidade sensual desaparecera dos seus pensamentos. A sua suprema felicidade consistia em ver que se comprehendiam, e que á delicadeza d'um correspondia maior delicadeza d'outro, que por mais alto que fosse o amante mais alto iria a mulher amada.

Era um phenomeno raro e admiravel. Em todos os tempos, as affeições humanas se nortearam por considerações mesquinhas, por interesse, pelo dinheiro, pela vaidade, e por prazeres grosseiramente sensuaes. Por isso pouco tempo duram e se arrastam na banalidade da vida de todos os dias.

Mas quando, não obstante os prejuizos sociaes, os costumes do mundo, as barreiras sociaes, os obstaculos da pobreza d'um e da fortuna d'outro, dois entes se atraem,{73} se encontram e se amam, este amôr profundo, é tão puro e tão bello, que por si mesmo constitue a base da vida d'aquelles que o sentem, e que não esperam, senão a hora em que o tumulo o destruirá.

Era um amôr assim, um thesouro de divinas sensações que unia a marqueza e o republicano. E, como n'este ultimo residia a força do caracter, e intelligencia e o talento, Ronquerolle devia absorver completamente a existencia de «M.me de la Tournelle». Ella tendia mais para elle do que elle a amava a ella. É o privilegio do homem: a força fascina a graça. É a planta que se agarra ao tronco da arvore e que com ella vive e morre.

Todas as barreiras da sociedade estavam destruidas entre a aristocratica marqueza e o fogoso republicano. Tudo aquillo que constitue as castas, separa as classes, sustenta o orgulho d'uns e envenena a inveja d'outros, desapparecia aos olhos d'esses dois seres que a fatalidade se entretinha a approximar e a unir n'um beijo.

Não era a altiva e imperiosa Maximiliana Carlota de Champeautey, tornada «M.me de la Tournelle» que alli estava, n'este momento.

Não havia n'ella mais que uma mulher nova e soberba, que uma creatura adoravel, embriagada d'amôr, abandonando-se livremente nos braços d'um homem que para ella attingira o mais alto grau da força moral e da coragem.