Os pratos exquisitos, os vinhos finos aqueceram pouco a pouco os cerebros, destravaram-se as linguas e a animação augmentou. D'Orgefin observáva os convidados e tirava um bom presagio das suas felizes disposições. D'uma sobriedade notavel, o conde não bebia senão agua, conservando o seu sangue frio. Ao «toast» fez encher a sua taça de «champagne» para levantar um brinde ao triumpho dos principios monarchicos, fazendo um «speech» enfatuado d'odio ao governo republicano.
Esperava-se um pequeno discurso da parte do bispo, mas a este, passaro bisnau, não convinha comprometter-se muito com{79} o partido conservador. Intimamente, detestava extraordinariamente as novas ideias; via, com a morte na alma, os triumphos dos principios da Revolução, mas os membros da egreja são prudentes. O bispo gostava antes de estar do lado do cabo, como se diz em linguagem popular e quando o futuro estivesse mais conhecido, elle cuidaria do seu caminho.
Emquanto se festejava a causa realista no castello do marquez, os habitantes da pequena cidade de Saint-Martin estavam seriamente preocupados. Este banquete era um acontecimento que entretinha todas as conversações.
Em toda a parte se fallava d'elle; na pharmacia, na praça, na fonte, e em frente da «mairie» formavam-se grupos, dizendo cada um o que lhe appetecia.
Por uma necessidade natural de se encontrarem juntos os republicanos de Saint-Martin foram todos para os lados da «Poule Blanche». O presidente Kolri discursava a uma grande mesa cercado de Ronquerolle, Branche, Didier e Maupertuis. A maior parte dos individuos estavam de pé e, a cada instante se ouvia copos tocando o do candidato republicano.
Ronquerolle encorajava-os, fallava-lhes das lutas que encontram sempre n'um paiz a liberdade e a justiça que nascem, fazendo-lhes comprehender que, na maior parte do tempo, o luxo do rico é sustentado pelo trabalho do pobre.
O joven republicano estava d'uma pallidez excessiva. Devorado pela febre da ambição e do amôr, pensava nas suas aventuras{80} de ha dois dias com a marqueza «de la Tournelle», deixando-se levar pela sua paixão. Todos os seus sentidos se sentiam presos d'uma languidez indefinivel.
A sensação dos beijos da sua amante parecia não poder deixar o seu rosto, não podendo ao mesmo tempo esquecer a sua lembrança.
Ignorava que, por elle, se recusara a comparecer ao banquete realista. Não suppunha que recordações amorosas tinha gravado no coração da bella Carlota.
Parecia que era elle Ronquerolle, que a amava com uma intensidade mais violenta, emquanto que, na realidade era a marqueza que tinha pelo republicano uma amizade mais profunda.