—«Mulher adorada, escrevia Ronquerolle, devo-te a primeira gloria da minha carreira! Sê bemdita, porque me ajudaste, porque foste immensamente corajosa para sacrificares por mim os prejuizos da tua raça; porque, afinal, tu sacrificaste-te... Que farei eu para recompensar o teu amôr que tão alto vae? Ah! no inicio da minha carreira, pobre, obscuro ainda, não tenho senão a minha mocidade para te dar, a ti minha encantadora e bella amiga, incomparavel Carlota, a ti, cuja graça me encanta, a ti cujos olhos azues me fazem louco, a ti cujo ser me enebria!...
«Que dias felizes eu antevejo! Que ideal visão me persegue! Que nobre destino eu entrevejo para ti e para mim, cara e mysteriosa amante!
«Ninguem saberá que nos amamos, ninguem advinhará o segredo da nossa amizade; amar-nos-hemos, adorar-nos-hemos por nossos proprios merecimentos e não para obedecer ás convenções sociaes, não para nos conformarmos com interesses pueris.
«... Para ti toda a minha alma, para ti{92} o melhor do meu pensamento, para ti a minha vida»!
Ronquerolle não podia de maneira alguma terminar a carta. O seu coração transbordava de ternura, quizera encerrar n'esse papel toda a sua existencia: o passado, o presente e o futuro.
Antes de a fechar releu-a; lagrimas ardentes lhe marejaram os olhos, a ponto de a si mesmo perguntar se não estaria preso d'uma allucinação.
E lacrou a carta sentindo-se moralmente fatigado.
[VII
Vida nova]
Na quinta-feira seguinte ao dia da eleição, pelas dez horas da manhã, a cidade de Saint-Martin apresentava um aspecto de festa fóra de costume. O sol de julho brilhava n'um ceu purissimo, e o calor era já asphyxiante. Quinhentas a seiscentas pessoas estacionavam em frente do edificio da Camara, onde acabava de chegar uma fanfarra com o seu estandarte, e ia formar-se o cortejo.
Os republicanos preparavam-se para acompanhar até á estação dos caminhos de ferro o cidadão Ronquerolle que partia para Paris.{93}