Este grito resoou pelo silencio da noite como o ronco d'um trovão. O seu ruido fez-se ouvir no castello feudal do marquez de «la Tournelle» e gelou de terror os realistas que se encontravam reunidos no salão.{90}
—A canalha triumpha disse friamente o conde d'Orgefin. Escute estes gritos marquez! Tenho receio de que tenhamos sido batidos!
De minuto em minuto chegavam estafetas das communas, succedendo-se sem interrupção os telegrammas. Por toda a parte o candidato republicano saía vitorioso.
Cêrca da meia noite a victoria definitiva de Ronquerolle foi proclamada. Vencera pela maioria de quatro mil seiscentos e vinte sete votos. Foi um delirio entre os republicanos.
O «Poule Blanche» illuminou-se, organisando-se grupos que cantavam pelas ruas hymnos patrioticos. Ronquerolle não podia acreditar no seu triumpho. Tinha os olhos cheios de lagrimas continuando a ser devorado pela febre.
Foi preciso que se mostrasse á multidão, da janella, entre bandeiras tricolores e illuminações. Estava pallido como a morte. Quando se fez silencio pronunciou um d'aquelles discursos que inflamam as imaginações e fazem transbordar os corações d'enthusiasmo.
Durante quasi uma hora, o intrepido mancebo fallou á multidão da maneira a mais patriotica. A sua fadiga desappareceu deante d'esses homens rudes e valentes que o applaudiam freneticamente. Quando de novo recolheu ao seu quarto, quando já tinham terminado todas as manifestações, Ronquerolle encontrou-se fresco e bem disposto, tendo-lhe desaparecido a febre; tinha passado a hora d'angustia.
Subia, finalmente, a essa tribuna que tanto{91} ambicionava. Os obstaculos que lhe impediam o caminho desappareceram como uma nuvem ligeira. O caminho do futuro, apparecia claramente agora aos seus olhos. Estava satisfeita a sua ambição.
—Restava-lhe ainda a amante. Ronquerolle passava a maior parte da noite a escrever-lhe.
Toda a poesia da sua natureza inquieta e apaixonada se desenvolveu livremente e as palavras mais ternas sairam da pena.