Algumas vezes, Ronquerolle acompanhava-o quando elle sahia de ao pé da doente, e ambos conversavam na casa de entrada da habitação da pobre rapariga.
—Ora vêde, dizia o medico, que de mysterios encerra a natureza!
«Ahi está uma sublime rapariga que vae morrer, porque n'ella o equilibrio das fôrças é incompleto.
«É cortada pela dôr, como um fragil canniçado pela ventania.
«A sua fraqueza faz d'ella uma santa.
«Os entes verdadeiramente fortes (e vós pertenceis sem duvida a esse numero, reconhece-se rapidamente no vosso olhar), os entes verdadeiramente fortes, são talvez mais feridos pela desillusão do que essa infeliz creança, mas vivem, não soffrem materialmente, sorriem até quando é preciso, teem-lhes inveja, crêem que elles são felizes.
«Olhae, por exemplo, para mim!
«Tenho eu porventura o ar d'um homem digno de lamentações?
«Possuo uma fortuna e goso d'um nome glorioso, entretanto um grande ferimento moral, me atormenta.»
Ronquerolle estava surprehendido pelas confidencias do notavel medico. Esse homem parecia adivinhar o seu pensamento, via claro na sua vida e comtudo devia ignorar em que mundo de emoções se encontrava agora o seu espirito.{108}